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Sociedade Filarmónica Incrível Almadense. Imagem: Restos de Colecção |
Rondavam dois homens graves e antiquados.
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Dupont et Dupond. Imagem: WillGoTo, © Hergé-Moulinsart 2009. |
O Zé mostrou-lhes o cartão de associado, e passámos adiante.
— Ih, que enchente! — fez a minha irmã.
— Que calor!
Dançava-se à meia-luz. A colorir os pares, desciam do tecto dois focos azuis. Um ambiente encantador!
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Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, vista parcial do festival, 4 de abril de 1959. Imagem: Almada Intemporal |
— Não se sentam? — perguntou o Zé.
— Quando acabar este fox, furamos a arranjar cadeiras... — esclareceu a namorada. — Está aqui muita gente à espera do mesmo!...
Toda a sala jazia mergulhado na penumbra — somente o cacho de dançarinos recebia a luz dos dois focos. Notei logo a Jacinta, de vestido verde de organdi até aos pés, cintado por uma barra do mesmo tecido.
Bailava nos braços de um rapaz alto, morenaço, colarinho de meia goma. uma figura muito fina.
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Beauty and the Beast, Walt Disney, 1991. Imagem: Gaia Online |
— Estão cá rapazes de Lisboa! — disse a minha irmã.
— Ja viste a Jacinta?
— Tá zangada com o namorado... Baila com outro. pra lhe meter pirraça!...
Todo o ambiente era deslumbrante! Os cavalheiros, a resplandecer de brilhantina, engravatados, fotogénicos, trajavam paletós de moderno corte.
Elas, vaporosas, um traço rubro nos lábios, cabelos ondulados, mostravam-se estranhamente favorecidas pelo colorido.
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Anastasia, Drizella and Lady Tremaine, Cinderella, Walt Disney, 1950. Imagem: why so blu? |
A atmosfera rescendia a tabaco, suor se perfumes.
— Que luxo, Delfina! Que luxo formidável! — ciciei, preocupada, receosa do nosso trajar.
No palco, os rapazes da orquestra concluíram o fox. Reacenderam-se as lâmpadas do salão, ao mesmo tempo que os focos azuis se sumiam, como que envergonhados de tanta claridade.
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Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, baile em 1959. Imagem: Casario do Ginjal |
Desfazendo o abraço, cada cavalheiro conduziu a respectiva dama ao seu lugar, agradecendo num respeitosa meneio de cabeça.
Que curioso! Os pares, agora banhados pela abundância de luz trivial perdiam todo o sumptuoso aspecto quase solene, que a penumbra e o colorido dos focos lhes emprestavam.
Afinal tudo caras conhecidas, corpos sem nada de especial: costureiras, raparigas domésticas, empregados do comércio, operários — umas e outros a trajar com sacrifício.
Nós, as sem cadeiras, furámos em onda, acotovelámos, pisámos os últimos dançarinos, ciosas de lugares.
Mas aparecia sempre qualquer mão a preservar os assentos vagos:
— Esse lugar tem dono!
Ou então:
— Essa cadeira é da minha filha, que foi lá dentro!... — E punham casacos sobre os tampos, amarravam lenços às travessas.
A Delfina, impaciente, tornou-se irascível:
— Seu?! Vossemecê, quando for pra casa, leva a cadeira?!...
Um cadeirão comprido saiu do balcão, em charola, sobre os ombros de dois membros da Direcção.
— Não chega pras encomendas! — disse uma rapariga de óculos, à nossa beira.
Ainda o móvel vinha a aterrar, já uma horda de braços se estendia, num atropelo feroz.
— Vacarronas! — rugiu a minha irmã, fora de si.
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Une vache à la rédaction, Franquin. Imagem: inediSPIROU |
Suados, as gravatas torcidas nos peitilhos, as repas desarrumadas nos crânios, os membros da Direcção imploravam calma: "porque, felizmente, a Sociedade ainda possuía cadeiras para os sócios".
A mãe da rapariga de óculos rosnou: — Cadeirões velhos!... Vão buscá-los ao sótão!... Rasguei o ano passado um vestido novo!
Mas vieram mais quatro bancos corridos — e conquistámos assentos.
O pior foram as raparigas da primeira fila, agora relegadas para a segunda ordem de cadeiras:
— Nós chegámos primeiro! A primeira fila é nossa!... Saiam! Saiam...
Venham ca pra trás! — É o sais!...
— Saem, pois! — E, ajoujadas de abafos, abandonavam as posições, lançando mão aos nossos assentos.
— Aí ninguém se senta! — E gritavam para as que iam adiante: — Reserva... Reserva aí três pra gente...
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Anastasia e Drizella Tremaine, Cinderella, Walt Disney, 1950. Imagem: The Mary Sue |
— Alarguem-se! Alarguem-se — berrávamos nós, solidárias, enchendo o cadeirão — Aqui não põem elas o rabo!
— Ó Direcção! — clamavam as logradas.
Puxei a Delfina, já a agatanhar uma magrizela de Setúbal: rr, muitos rr, na sua voz de falsete. A Carminda e a mãe estavam nesse cadeirão — e não fizeram mais do que rir, rir muito.
E a paz e a arrumação só foram possíveis quando o presidente da colectividade, o Sr. Trigueiros, sujeito muito lido e de imenso prestígio associativo, foi ao meio da saia expor "a inconveniência de cenas de tal jaez".
O salão estava decorado de flores artificiais, dísticos, versos alusivos à Primavera. Colchas de seda, emprestados, ernbicavam da galeria.
O palco não tinha o pano habitual! Um lindo cortinado cor-de-rosa, descida a meio da cena, encobria o quer que fosse na retaguarda.
Na ribalta, uma trupe de seis músicos, trajando à marinheiro. Um letreiro desenhado corria as estantes: "OS MARUJINHOS". (1)
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Woodward-Davis Family Band, 1917. Imagem: TempoSenzaTempo |
(1) Correia, Romeu, Trapo Azul, Guimarães Editores, 1953, 231 págs.
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