quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Joseph Schranz e o Tejo

Joseph, ou Giuseppe, Schranz (1803-1853) nasceu em Porto Mahón, Minorca, e foi um dos três filhos artistas do pintor Anton Schranz (1769-1839).

Uma fragata inglesa a chegar ao Tejo frente à Torre de Belém, com uma fragata portuguesa ancorada ao largo pela sua popa, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Mudou-se para Malta com os seus pais em 1818 e é sabido ter visitado Corfu pelo menos duas vezes, em 1826 com o seu irmão Giovanni (John, Johann), e novamente em 1840, altura em que fixou residência permanente em Constantinopla.

Numerosos trabalhos do artista foram vendidos em leilão, incluindo dois trabalhos vendidos pela Christie's King Street "Important Maritime Art" em 2007 por $105,660:

An English frigate arriving in the Tagus off the Belem Tower, with an anchored Portuguese frigate off her stern [Uma fragata inglesa a chegar ao Tejo frente à Torre de Belém, com uma fragata portuguesa ancorada ao largo pela sua popa];

An English frigate hove-to off the southern bank of the Tagus with small craft nearby [Uma fragata inglesa de través frente à margem sul do Tejo com pequenas embarcações nas proximidades].

Uma fragata inglesa de través frente à margem sul do Tejo com pequenas embarcações nas proximidades, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Possivelmente o melhor da familia Schranz de artistas, pintou com meticulosa atenção An Extensive View of Lisbon on the River Tejo with the Praça Do Terreiro Do Paço, the Old Cathedral and the Castelo de S. Jorge [Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge].

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX


Fontes:
CHRISTIE'S
MAGNOLIA BOX

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Lisboa no anno 2000

De bom grado olhamos para o passado de Portugal [...]


Lisboa era o ponto de reunião de todas as marinhas do mundo inteiro [...]


Uma série de V invertidos de cujo vértice pendia um carril a que se suspendiam as carruagens que constituiam o comboio, davam um aspecto curioso ás ruas [...]


A Trafaria estava transformada num grande centro industrial. Tinha vinte e cinco fábricas de conservas de peixe. Desde o alto de Murfacém, da Torre, do Pragal até à margem esquerda do Tejo só fábricas é que se viam [...] (1)


Para atravessar aquele emaranhado de linhas estabeleceram-se transportadores aéreos, que conduziam os passageiros aos diversos cais de mercadorias [...]


Onde contudo se podia presenciar a labuta de todos os cais era de uma torre de aço com a forma de sólido de igual resistência, de base quadrangualar e de 350 metros de altura [...]


O empregado do armazém disse dois algarismos e logo sem demora apareceu no quedro "telefotográfico" a imagem do vendedor [...] (2)


Todo o edifício dizia que o relógio era a razão de ser daquela obra, como que o coração e o cérebro e o mesmo tempo daquele momento [...] (3)


Entretanto a 5 de Junho de 1994, inaugurava-se solenemente a estação subterrânea de Lisboa nas Linhas do sul [...]


Bastaram três minutos para que o comboio parasse na estação do Seixal [...] (4)


(1) Mattos, Mello de, Illustração Portugueza, Lisboa no anno 2000, Lisboa, 26 março 1906
(2) Mattos, Mello de, Illustração Portugueza, Lisboa no anno 2000, Lisboa, 2 abril 1906
(3) Mattos, Mello de, Illustração Portugueza, Lisboa no anno 2000, Lisboa, 9 abril 1906
(4) Mattos, Mello de, Illustração Portugueza, Lisboa no anno 2000, Lisboa, 16 abril 1906

Artigos relacionados:
Lisboa monumental em 1906
Projecto de travessia do Tejo em 1889
A ponte

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Escolas por onde passei

Estávamos em 1955 chegou o dia 8 de Outubro, primeiro dia de aulas, para a maioria era a primeira vez, havia outros que eram repetentes, estávamos na primeira classe, íamos aprender a ler e a escrever, coisa que não tinha acontecido com muitas gerações anteriores á nossa, uns por necessidades das famílias, foram obrigados a ir trabalhar muito cedo para ajudarem em casa, outros não queriam aprender e fugiam da escola.

Aniki-Bóbó, Manuel de Oliveira, 1942.
Imagem: HARVARD FILM ARCHIVE

Nesse dia lá estávamos todos preparados para o arranque de uma nova vida, uns levavam batas brancas outros com a sua roupa normal acompanhados pelo tradicional caderno de duas linhas, uma ardósia, um lápis e uma borracha, material essencial para o arranque do ano lectivo.

Almada, escola Conde de Ferreira,  1954 - 1955.
Imagem: almaDalmada

Muitos daqueles meninos já os conhecíamos de vista mas não tínhamos muita aproximação, a partir daquele dia criámos fortes amizades, algumas chegaram até ao dia em que estou a escrever estas linhas.

LIVRO DA PRIMEIRA CLASSE, ed. 1954.
Imagem: Restos de Colecção

Eram rapazes da Romeira, das Barrocas, da Praceta, do Brejo, do Chegadinho (Alagoa), do Bairro, da Ramalha, da Mutela, do Altinho e do centro da Cova da Piedade, eram lugares da freguesia (fundada em 7 de Fevereiro de 1928).

Antes da uma hora já estavam todos junto á escola á espera do professor neste caso foi uma professora a D. Ilda era uma senhora com cerca de 50 anos já tinha alguns cabelos grisalhos de estatura média um pouco para o forte e com uma voz muito suave logo nos cumprimentou e deu ordem para entrarmos para a sala de aula, a escola funcionava numa vivenda, era uma escola provisória (Escola do Posto) e assim se manteve durante muitos anos até á sua extinção, por ali passaram centenas de rapazes que aprenderam a ler e a escrever, a escola ficava na actual Rua Pedro Matos Filipe junto da drogaria do Hermínio (o Hermínio era um homem alto e forte era do Pragal e falava muito alto), fazia esquina com a Av. da Fundação hoje o local está em degradação total.

Cova da Piedade, escola do Bairro das Casas Económicas, c. 1968.
Imagem: Eleutério L. M. Varela

Ainda não tínhamos os lugares marcados éramos cerca de trinta alunos sentámo-nos no lugar que estivesse vago e por ultimo entrou a Senhora Professora D. Ilda. Deu-nos as boas-vindas e falou das normas que teríamos de respeitar durante o período das aulas, a forma como nos devíamos comportar ao entrar e á saída da escola assim como durante as aulas, este primeiro dia foi de apresentação ficamos a saber o nome de cada um dos companheiros.

Lembro o João de Deus e o irmão que era deficiente e grande passarinheiro, o Canina, o Vítor Henriques, José Francisco, O Borrego, o Vítor (gordo) morava em frente á escola, o João (Soneca), o Morgado, o Câmara, o Funileiro, o Ferreira, o José Martins Vieira foi jogador do Desportivo e seu capitão e músico na SFUAP (mais tarde foi o 1º. Presidente da Câmara Municipal de Almada após o 25 de Abril de 1974), o Pereira, o Mário, o Alberto (Massaroca), o Diniz, o Zeca (Sardinha) (foi um óptimo cantor em diversos conjuntos musicais) ainda hoje canta, o Jorge Alberto Roseiro (Laica), o Campos e eu próprio (Alberto Jorge) e outros que não me vem á memoria.

Almada, alunos da Escola Conde de Ferreira, c. 1948.
Imagem: Antigos Alunos da Escola Conde Ferreira - Almada no Facebook

É mesmo curioso um Jorge Alberto e um Alberto Jorge na primeira classe, o destino estava marcado ao sermos companheiros de carteira com os nomes trocados, ainda hoje somos bons amigos.

Foram os primeiros passos na nossa aprendizagem e como eles foram importantes para a nossa formação. Até fazermos a 4ª Classe ainda passamos por outras escolas, algumas sem condições mas era o que havia naquele tempo, as escolas não eram mistas ou seja dum lado a escola das meninas do outro lado os rapazes, tivemos aulas na escola das meninas que ainda hoje existe na Av. da Fundação era a única classe de rapazes que havia naquela escola (tivemos só um ano por falta de salas), também frequentamos a escola das meninas que ainda existe no Bairro da Nossa Senhora da Piedade (Escola do Bairro) (por pouco tempo), estivemos na Escola do Gomes com o Prof. Leitão que era o director da escola e vivia no primeiro andar da mesma e por ultimo frequentamos a velhinha Escola do Brejo que hoje já não existe, era perto das bombas de gasolinas que hoje ali existem e do Estádio José Martins Vieira (Campo do Desportivo).

Escola Primária António José Gomes, inaugurada em 1911, projecto do arquitecto Adães Bermudes.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

Lembro-me do velho pátio que servia de recreio á escola, a sala de aula ficava no primeiro andar (chovia lá dentro como na rua) tínhamos que subir uma enorme escadaria para entrar na escola, em tempo de chuva a azinhaga do Brejo enchia-se de água, ali perto ficava uma mercearia conhecida pelo Armazém, aí entroncava uma azinhaga que ia para o campo do Desportivo (Campo Silva Nunes) também ela ficava alagada com as chuvadas da época, os Invernos eram intensivos e muito prolongados, lembro que muitas vezes ajudamos a desentupir as saídas das águas e quando chegávamos á escola estávamos completamente encharcados logo a professora nos mandava para casa para mudarmos de roupa, nesse dia já não voltávamos á escola, tínhamos mais tempo para a brincadeira.

Cova da Piedade, Azinhaga do Brejo, edifício da Escola do Brejo, década de 1980.
Imagem: José Luis Covita

Depois chegou altura de fazermos o exame da 4ª. Classe fomos fazê-lo á Escola do Campo em Almada junto do Cemitério da Vila, ao completarmos a instrução primária fizemos a admissão á escola técnica, o exame foi na Escola António da Costa na Rua D. João I em Almada, já no Ciclo Preparatório e como as instalações eram pequenas fomos colocados na Escola Emídio Navarro (já tem mais de cinquenta anos) junto da antiga azinhaga de Mata Cães e perto dos Caranguejais um bairro de lata que ali existia (hoje existe a Escola António da Costa e o Teatro Municipal), nesse local havia um fabrico de cortiça do Jacinto do Carmo Marques que foi jogador do Liberdade-Mutela e do Benfica um dos vencedores da Taça Latina, frequentamos o ciclo preparatório nessa escola e continuamos na Emídio Navarro (O seu patrono foi Ministro das Obras Publicas, morreu em 1905) a frequentar o Curso Geral do Comercio já no período da noite porque era hora de começar a trabalhar.

Em 2.° plano a Escola Prepatória D. António da Costa no dia 25 de abril de 1975.
Imagem: almaDalmada

Quero deixar uma homenagem muito sentida á Professora D.Ilda (infelizmente já desaparecida) que me ensinou a ler e a escrever assim como a muitas centenas de meninos como eu, onde ela estiver o meu reconhecido obrigado.

Hoje ao escrever sobre as minhas escolas, é importante dar a conhecer aos vindouros os locais das escolas que frequentamos e os amigos que criamos num tempo em que as dificuldades eram enormes.

Na esquerda mão um livro me pintaste,
Na outra a palmatória,
Com carregado, ríspido focinho,
Dictando leis em tribunal de pinho.

Imagem: Obras completas de Nicolau Tolentino de Almeida

Hoje, tudo é mais fácil, só quero dizer aos mais novos que aproveitem as óptimas condições que lhes são oferecidas e que gostem da vossa escola como eu gostei da minha. (1)


(1) Uma história por Alberto Silva

Artigos relacionados:
A escola da dona Assunção
SFUAP, origens, teatro e escola
Clube Desportivo da Cova da Piedade


Mais informação:
Ensino Primário

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Os Simples

O melhor Carnaval com o conjunto musical Os Simples, Clube de Instrução e Recreio do Laranjeiro, 1975.
Imagem: Carlos Cunha

in Internet Archive
Os Simples nasceram em 1973 na Trafaria e com músicos maioritariamente da Trafaria que faziam música em vários grupos.

Os Simples, banda musical da Trafaria, década de 1970.
Imagem: Mais um blog inútil.

A formação que, em minha opinião, teve imensa qualidade (para a altura) e eventualmente o maior sucesso.

Bateria: Dário
Baixo: Manuel José
Metais: Carlos Oliveira ("China") e Manuel Eixa
Teclas: José Carlos
Guitarra: Matos (jovem guitarrista que posteriormente ingressou como viola baixo nos "UHF" de grande talento)
Cantor: Jorge Gomes (tinha deixado os "6 de Portugal")


Os Simples, banda musical da Trafaria, década de 1970.
Imagem: Mais um blog inútil.

in Internet Archive

[...] recordar todos estes temas que foram tocados num dia de ensaios num das garagens dos Bombeiros Voluntários da Trafaria, 

Trafaria, Quartel dos Bombeiros Voluntários.

o grupo na altura era o Manuel Eixa no Saxofone Alto e vozes, eu Carlos Oliveira no Trompete e vozes, o Manuel José no Baixo Eléctrico, O Dário (que tinha uns óculos de fundo de garrafa) na Bateria, o "Resmembas" (desculpa meu amigo mas esqueci o teu nome) no Orgão Fender Rhodes com "Leslie", a ultima tecnologia em teclas na altura, e o Victor na Voz principal [...]

Os Simples, banda musical da Trafaria, década de 1970.
Imagem: Mais um blog inútil.

Com diversas formações durou até ao princípio da década de 80. Da última constituição ainda saiu a formação do TATOO. (1)


(1) Mais um blog inútil.

domingo, 20 de setembro de 2015

Uma arribada em calma branca


UM dia de dezembro, um soberbo dia de dezembro no nosso paiz é, para mim, o ideal da belleza diurna de todas as quadras do anno.

Não tem os relvões esmaltados, pomares floridos, searas ondeantes, gorgear de ninhos como na primavera; nem os vinhedos colmados de cachos, o trigo loiro, sombras remorosas de arvores de fructos opimos como o verão e o outono.

Mas tem o pungir virginal da esperança nas folhas das terras lavradias, os cristaes serpentinos dos córregos e algares, as veias prateadas dos ribeiros e as calhandras aos paires pelos ares.

Vem abrindo a manhã; é rápido o crepúsculo; o norte brando e límpido menea a coma flexivel dos pinheiros bravos; o azul do ceu carregado como o dos Apeninos, o sol, incendiado, resae da orla do nascente, os diamantes da geada á fíor da terra, e na rede das arvores desfolhadas. Na esphera immaculada, no ar luminoso e vivificador a suprema formosura, annunciando, no poder latente da natureza, os dias prósperos do futuro.

Foi n'uma d'essas madrugadas inolvidáveis de dezembro, em 1877, que eu sahi a bater os montados da Rosa e da Oliva. Na volta á Trafaria, encontrei de improviso Júlio Mardel. Vi nha com um rapaz que eu conhecia — Lúcio do Sacramento — regente agrícola, protegido de Simões Margiochi.

*

Duas palavras sobre Júlio Mardel.

Conheci-o no berço. Não ha ninguém de certa roda e certa edade, que o não conheça e o não aprecie no muito que vale. O que nem todos podem calcular é o que elle foi em pequeno. Não conheci na minha longa vida criança egual.

Tinha conceitos, replicas brilhantes — algumas já correm impressas. Quando convinha, guardava a compostura de um homem feito. Era tal a vivacidade, o talento a borbotões, que sahia d'aquelle cérebro infantil, que in fundia mais do que espanto; quasi medo!

A precocidade assombrosa, reunia a simplesa e as graças da puerícia. Um dia, teria elle dez annos, levei-o a jantar a casa de Rebello da Silva. Vinha galantíssimo; todo de veludo preto, e trajando com o bom gosto peculiar n'aquella excepcional familia.

Por essa época, o eminente escriptor e orador recebia ás quintas, e domingos, a jantar, os seus íntimos: Rodrigo Felner, A. Xavier Rodrigues Cordeiro, Francisco Maria Bordallo, António Pedro Lopes de Mendonça.

Alexandre Herculano nas quintas era quasi sempre certo. N'esse tempo morava Rebello na rua de S. Bento, próximo á travessa de Santo Amaro. Ao lado vivia Latino Coelho, e em frente João de Andrade Corvo.

Corvo, também não raro, vinha jantar; Latino, abstemio como um anachoreta, apenas apparecia ás noites.

Com taes convivas, pôde calcular-se como corria o tempo, e talvez devesse tomar-se como leviandade minha levar um pequeno, que mal teria dez annos, a passar largas horas com homens d'aquelles. Pois encantou e maravilhou a todos.

Pena foi, di-lo-ei, pena foi, que apesar do que vale, Júlio Mardel não hou vesse desenvolvido mais profusamente, n'um estudo methodico e aturado, as poderosas faculdades do seu engenho nativo.

*

A canoa, que havia de transportar-nos a Lisboa, era tripulada por três rapazes braceiros e pelo velho mestre Casaca já entrado em annos, porém robusto ainda. Os meus companheiros de viagem: Júlio, Lúcio e meu afilhado António Tovas.

Quatro remeiros para atravessar o Tejo em noite plenamente calma e n'um dos pontos mais estreitos do rio, talvez pareçam de sobra. E que as aguas do monte vinham de tal modo arrebatadas que próximo á barra eram doces.

As chuvas do outono haviam sido caudaes.

Júlio Mardel, ao pôr os pés no barco, invocou o grande épico, exclamando:

"Oh! mal haja o primeiro que no mundo
Nas ondas vela poz um secco lenho!" [Camões, Luis de, Os Lusíadas, Canto IV, Estância 152]

E commentou o texto, declarando que não havia homem em todo o universo mais poltrão do que elle no mar.

Vendo, porém, a tranquilidade da noite, continuou dando largas á veia inexgotavel da sua faiscante palavra.

Mettemos ao rez do Almarás, montes que vão da Trafaria ao Pontal de Cacilhas.

*

A tarde findava. A lua, em fogo, como o sol posto, levantava-se do nascente.

Momento que raras vezes, sob um céu diaphano e luminoso, logram apanhar os que adoram os painéis inimitáveis da natureza no incomparável rio do nosso paiz.

Como descrever os tons das aguas, dos horisontes, onde a mancha de rubim vae cambiando na violeta da amethysta; os picos de Cintra, como ondulando, a desapparecer na penumbra do occidente, a cidade a envolver-se no veu da neblina crepuscular!

Não ha tintas, nem linhas, nem arte de génio humano que possam reproduzir com o pincel, com a palavra, com todo o vago e intenso das próprias partituras, a maravilha arrebatadora!

A alma do admirador enternece-se, extasia-se, abysma-se na contemplação momentânea do indisivel quadro!

*

Tinhamos embarcado havia largo espaço. Nos vãos, recôncavos, grutas e largas fendas d'aquelles rochedos, o ímpeto da corrente dava uns rugidos surdos e sinistros, contrastando singularmente com a funda e majestosa serenidade da noite.

Júlio Mardel emmudeceu. Os remadores, arrancando com alma, procuravam chegar a uma altura que lhes permittisse descair no caes de Belém.

Ao cabo de mais uma hora, supondo momento propicio, tentaram a travessia. A poucas remadas entravamos no fio da corrente.

O barco a descair a olhos vistos. Os homens redobrando na faina, Mar estanhado, porém a ondulação, que vinha do largo, augmentava.

Ouvia-se já distinctamenteo som pesado da vaga nos cachopos da barra:

"Como o confuso bramar
D'um mar ao longe movido. 
Que á praia vem rebentar" [Garrett, Almeida, Folhas Caídas]

Ninguém proferia palavra.

N'isto, um dos remeiros d'estibordo levou a mão á cabeça, e tirando o barrete disse, suffocado de afflicção:

— Nossa Senhora do Cabo!

Os outros responderam sombriamente:

— Nossa Senhora do Cabo!

O mais leve esmorecimento era a perdição. Se o barco desse a popa á corrente, em poucos minutos estávamos todos perdidos.

Então, com a energia dos momentos supremos, acudi aos dois canos da minha espingarda.

Quando saltámos em terra...
A disciplina restabeleceu-se. 

O pânico passou. 

Os rapazes, resolutos e vigorosos, arrependidos e envergonhados d'um momento de fraqueza, com a alma de marítimos portuguezes, atiraram-se ao punho dos remos de voga arrancada, e, soando em grossas bagas, lograram tomar a revessa, e deitaram-nos adiante do Dá Fundo.

Quando saltámos em terra, os calhaus da praia pareceram-nos tapis da Pérsia.

As estrellas no ceu profundo, desvanecidas com o luar esplendido; na superfície espelhada do Tejo e, barra-fóra, a tremulina.

Encanto ethéreo de noite e de mar! 

O mar, porém, embora manso como cordeiro, é sempre pérfido e tigrino.


*

Mettemos caminho de Belém. 

Os Jerónimos inundados de luz nas linhas altivas e elegantes. Nós, perdido o senso esthetico, não tinhamos olhos senão para ver se estava allumiada ainda a casa de pasto do Caçador d'El-rei, João Lourenço, por antonomásia — o João da Burra.

Estava e tinha a canja de gallinha, a sua cosinha á portugueza e o trato fino e polido da sua pessoa opulenta de formas e sympathica. Também se foi na força da vida.

Eu não lamento a solidão dos velhos. Os velhos sempre teem alguns vivos, e sempre uma legião de mortos!

Dos meus companheiros d'aquella notável travessia. Lúcio do Sacramento sucumbiu ha muito. Júlio Mardel, e meu afilhado António Maria Tovas, estão vivos, e Deus os conserve!

Monte de Caparica, Torre. Outubro, 25 — 1906 (1)



(1) Bulhão Pato, Raimundo António de, Uma arribada em calma branca

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Do Vale da Enxurrada à Foz do Rego

Das recentes dissertações que nos referem (2 de 2)

A área de estudo é limitada a norte pela linha de costa da frente ribeirinha, a este pela Vala da Enxurrada que desagua no Rio Tejo e que limita assim a área de intervenção na vila da Trafaria, bem como é limitada pela área de intervenção específica da faixa de proteção à Arriba Fóssil da Costa de Caparica (faixa de 70 metros para o interior a contar da crista da arriba, segundo a Resolução do Concelho de Ministros nº178/2008, 24 de Novembro), a sul é limitada igualmente por uma linha de água, a Ribeira da Foz do Rego e a oeste é limitada pela linha de costa na frente oceânica.

Trafaria, Valle da Enxurrada, ed. J. Quirino Rocha, 3, década de 1900.
Imagem: Delcampe

A Arriba Fóssil da Costa de Caparica foi classificada como área protegida segundo o Decreto-Lei nº 168/84, de 22 de Maio, pelo seu excecional valor paisagístico, geológico e geomorfológico.

Costa da Caparica, vista da Quinta de Santo António e da Mata Florestal, tomada do Alto do Robalo, década de 1930.
Imagem: ed. desc.

Para além de diversos estratos de camadas subhorizontais de rochas sedimentares, de conteúdo fossilífero e de origem flúvio-marinha, a área da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica é igualmente uma reserva botânica de elevado interesse, a Mata Nacional dos Medos, classificada segundo o Decreto-Lei nº 444/71, de 23 de Outubro.

Escarpements formés par le Miocène et Pliocène entre Costa de Caparica et Adissa [Adiça], cliché P Choffat, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

A paisagem protegida que compreende parte da arriba fóssil estende-se por 13 km na plataforma litoral, desde a Costa de Caparica à Lagoa de Albufeira e tem uma superfície aproximada de 1599 hectares. (1)



(1) Oliveira, Marta N. S. C., Evolução Natural e Antrópica Trafaria - Cova do Vapor - Costa de Caparica, Lisboa, UL, 2015

Temas:
Costa da Caparica
Trafaria

Informação relacionada:
Almada, entre o Rio e o Mar
Vídeo: cmalmada

Almada - Banhada por um Mar de histórias
Vídeo: cmalmada

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Art Deco

Das recentes dissertações que nos referem (1 de 2)

Art Deco: estilo que surgiu na década de 1920 ganhando força nos anos 30 na Europa e na América do Norte e do Sul e que abrangeu a moda, a arquitectura, as artes plásticas, o design gráfico, a tipografia e o design industrial.

Ilustração de Cassiano Branco, L'Illustration 4963, 16 April 1938.
Imagem: Old french Adverts

O estilo deve o seu nome à Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais modernas (em francês: Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes), realizada em Paris, em 1925.

Fasten Your Seat Belt, Stephan Paris, 2010.
Imagem: DeviantArt

Essencialmente era um estilo decorativo que combinava luxo, e ornamentação formal, e que apresentava cores discretas, traços sintéticos, formas estilizadas ou geométricas.

Costa da Caparica, vista aérea, 1930 — 1932.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A aproximação da construção à área costeira limitou a forma de ver a possibilidade e potencialidades locais de crescimento urbano, resultando em aglomerados habitacionais próximos da praia, por vezes até de uma forma potencialmente perigosa.

Costa de Caparica, Praia Atlântico.
Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1930.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Por estas razões talvez o plano de Cassiano Branco fosse utópico para a época mas também será verdade afirmar que seria em muitos aspectos um plano actual, realista caso tivesse sido implementado, atribuído um rumo bem diferente àquela região.

Breakwater Hotel, South Miami Beach.
Imagem: Art Deco Tours

Observemos então a proposta de Cassiano Branco ou o postal e, a partir dele, desenvolvemos algumas reflexões, necessariamente especulativas essencialmente porque não existem textos que acompanhem a reflexão sobre o território, que pretendem descodificar as motivações, compreender os enquadramentos e comentar um desejo de uma nova cidade.

Hotel, Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1934.
Imagem: Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade

O postal que representa uma proposta utópica para a Costa da Caparica, que seguramente não é somente um simples postal, prefigura uma cidade de lazer, particularmente apetrechada com equipamentos desportivos, lúdicos e culturais, que também, seguramente, não são imagem de Portugal dos anos 30, como não é igualmente representativa das tendências urbanísticas impostas pelo Estado-Novo.

Casino, Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1934.
Imagem: Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade

Efectivamente, só na década seguinte se realizaram em Portugal alguns Planos de Urbanização de algumas estâncias de férias do litoral, cujos programas são quase exclusivamente a habitação unifamiliar, o hotel, o mercado e a igreja, não tendo contudo um caracter tão abrangente no território como o Plano da Costa da Caparica de Cassiano Branco.

Costa da Caparica, Hotel Praia do Sol, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Delcampe

Refira-se uma vez mais que os limites deste plano não são claros mas, referenciando a extensão da Arriba Fóssil, quase que podemos afirmar que ele se estende desde a Costa da Caparica até à zona da Fonte-da-Telha.

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

São propostas registadas em planta que apresentam uma estrutura viária disciplinada e hierarquizada em função de pequenas rotundas ou praças, à qual corresponde também uma hierarquização do programa.

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

Prevalece um cenário de Cidade-Jardim muitas vezes associado à intenção de preservação e aproveitamento do património vegetal pré-existente.

Costa da Caparica, Miradouro dos Capuchos e Caparica, ed. Passaporte, 39, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Oliveira

A cidade jardim é um modelo de cidade concebido por Ebenezer Howard, no final do Séc. XIX, consistindo em uma comunidade autónoma cercada por um cinturão verde num meio-termo entre campo e cidade.

San Alfonso del Mar Crystal Lagoon, Algarrobo, Chile.
Imagem: Mail Online

A ideia era aproveitar as vantagens do campo eliminando as desvantagens da grande cidade, mas nem sempre pode ser um sinónimo de eco-cidade. (1)

Costa da Caparica, vista aérea, c. 1980.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard


(1) Rufino, A. M. A. C. P, Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade, Lisboa, , 2014

Artigos relacionados:
Costa da Caparica — urbanismos
A ponte

Informação relacionada:
Arquivo RTP: Vida & Obra de Cassiano Branco