segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Defesa de Lisboa em 1810 (I)

No início de dezembro, alguns movimentos das tropas francesas no sul da Espanha levaram a crer que uma movimentação estava a ser intentada no Alentejo, em apoio da renovada operação contra as linhas [de defesa], [no caso,] o promontório de Almada à esquerda do Tejo, oposto a Lisboa, que comanda a navegação do rio, e de cujas proteções abrange uma grande parte da cidade,* foi reduzido sob a superintendência do Capitão Goldfinch.

* O Tejo, oposto ao Castelo de Almada, tem apenas 2,200 jardas [2.011 mts.] de largo.

A military sketch of the country between Lisbon and Vimeiro occupied by the British Army (detail), 1810.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A esquerda desta posição ficava sobre a ampla bacia do Tejo, no alto imediatamente acima de Mutella; o seu centro estava no Monte de Caparica, Lugar de Monte, e a sua direita sobre a falésia rochosa, chamada de Altos da Raposeira, elevando-se acima do mar, a toda a extensão da sua frente, cerca de 8.000 jardas [7.315 mts.].

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

Uma cadeia de redutos, 17 em número [revisto posteriormente], flanqueando-se mutuamente, e tendo seteiras frontais, para permitir a observação nas ravinas, foi estabelecida sobre os outeiros mais proeminentes desta linha, estando a sua defesa unida com, e apoiada por, várias casas de campo na sua retaguarda, que, sendo construídas em pedra, com recintos de pedra, podem a qualquer momento ser formidáveis postos.
  • 01 Forte de Almada
  • 02 Forte do Pragal, perto do Pau de Bandeira, alt. 108 mts.
  • 03 Forte de Palença, 200 mts. a norte de Palença de Cima
  • 04 Forte do Raposo, na colina do marco trigonométrico
  • 05 Forte do Bicheiro, Quinta do Bicheiro, Caparica
  • 06 Forte do Prior, sítio de S. António na povoação de Caparica
  • 07 Forte da Granja, Quinta da Granja entre Formosinho e Vigia
  • 08 Forte de Castelo Picão, pequena povoação no monte de Caparica
  • 09 Forte de Montinhoso, no sítio do mesmo nome
  • 10 Forte do Guedes, atual Quinta da Conceição
  • 11 Forte de Murfacém, a oeste de igreja, alt. 105 mts.
  • 12 Forte da Raposeira Pequena, no atual sítio de Alpena
  • 13 Forte da Raposeira Grande, no lugar do novo reduto de Alpena
  • 14 Forte da Margueira, alt. 35 mts.
  • 15 Forte do Conde, atual rua Lourenço Pires de Távora
  • 16 Forte de S. Sebastião, 100 mts. a sul da ermida de S. Sebastião
  • 17 Forte do Armeiro Mor, Pragal, alt. 80 mts.
  • 18 Forte do Melo, Ginjal do Monte, Caparica
  • 19 Forte do Pombal, lado sul da estrada Caparica - Casas Velhas
  • 20 Forte de Possolos, onde hoje se encontra o cemitério de Caparica
  • 21 Forte de Pera de Cima, Quinta da Conceição, alt. 200 mts.
  •  
  • in PEREIRA DE SOUSA , R. H., Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.
Uma estrada afundada, que se estendia a quase toda a posição, na traseira dos redutos, formava uma comunicação segura entre eles e foi engenhosamente feita pelo oficial executivo para reforçar à sua defesa, cortada em banqueta, e protegendo fora do declive à sua frente, de modo a formar um caminho coberto normal, com locais armados nos pontos que davam os melhores flancos e que melhor poderiam ser apoiados pelos edifícios de pedra.

Fortificação típica das linhas de defesa de Lisboa, 1810.
Imagem: Papers on Subjects Connected with the Duties of the Corps of Royal Engnieers

O castelo de Almada, em ruínas, foi reparado e armado para defesa, de modo a formar uma espécie de cidadela interior, que deve garantir a comunicação com Lisboa até ao último momento; e como meio pronto de comunicação entre a esquadra e as várias partes da posição, foram contruídas estradas em várias pontos do penhasco,* formando a sua garganta.

* Após uma parte desta estrada ter sido construída, o acabamento do remanescente foi suspenso; em consequência dos inconvenientes ocasionados aos ocupantes de habitações privadas, e o conhecimento de que a estrada poderia, com a devida atenção, ser acabada quando requerido num tempo inferior ao necessário ao inimigo para reunir forças, e marchar através do Alentejo.

Ruínas do castelo de Almada, Carta Geographica da Provincia da Estremadura (detalhe), c.1777 - 1780?
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Foi proposto confiar a defesa desta posição aos marinheiros e fuzileiros navais da esquadra, juntamente com as milícias [ordenanças] e os corpos cívicos de Lisboa [voluntários], os redutos foram construídos com uma magnitude fora do comum, muitos sendo capazes de conter 400, 500, ou 600 homens, e desde 6 a 10 peças de artilharia; a guarnição calculada para o conjunto quando concluído será 7.500 homens e 86 peças de artilharia.

Soldado de Caçadores n° 6, 1811,
Organização de Beresford,
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Qualquer ataque de Almada neste momento só poderia ter sido uma operação secundária; mesmo se bem sucedida, o Tejo ter-se-ia interposto como um obstáculo intransponível entre os vencedores e Lisboa, e ocupação do promontório deveria ter sido completamente dependente do sucesso na frente. 

Portanto, qualquer modo de ocupação de Almada, que devesse prejudicar a defesa das linhas, dificilmente poderia ter sido justificado; mas era objeto de um grande valor, assim, por meio de profundos trabalhos e um esforço que de outra maneira não poderia ter sido tornado útil, por ter eliminado a possibilidade de pequenas forças inimigas perturbarem a esquadra, criando alarme e confusão na capital, e, talvez, espalhando o pânico através do país na retaguarda do exército, no momento em que as linhas [de Torres, a norte de Lisboa,] fossem atacadas [...]

Castelo de Almada após as reparações de 1810, gravura (detalhe), Pierre Eugène Aubert (Aubert pére),
cf. Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden,
Fieldmarshal The Duke of Wellington.
Imagem:  Biblioteca Nacional de Portugal

Nenhuma das objecções às linhas contínuas, no entanto, se aplicam aos postos fechados e isolados, cada um deles capaz de uma boa resistência, já que os intervalos entre eles não exigem uma linha de tropas de apoio, e após o fornecimento de guarnições para o trabalho, o exército pode permanecer em grupos abrigados, dos bombardeamentos, por algumas irregularidades do terreno perto do cume da elevações; 

Cabo do Regimento de Infantaria n° 24, 1813.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

ou se isso não se encontrar, no reverso, imediatamente abaixo da crista, pronto para se mover em grupos compactos e formidáveis sobre qualquer ponto ameaçado, ou formar em linha ou manobrar sobre os postos tomados, de maneira a melhor deter os esforços do assaltantes; um bom exemplo, cuja natureza da posição pode ser estudada nas defesas de Almada [...]

Soldado de Infantaria n° 8, 1810.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Não se dá plano sobre as posições de Almada, Oeiras e Setúbal, já que é possível que, ao correr dos anos, sejam novamente ocupadas; uma referência aos planos pode ser feita por quem o deseje no escritório em Londres [...]* (1)


* originalmente publicado em julho de 2015

(1) John Thomas Jones, Memoranda relative to the lines thrown up to cover Lisbon in 1810, Londres, 1829

Leitura adicional:
Papers on Subjects Connected with the Duties of the Corps of Royal Engineers
Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, in Spain, during the years 1811 to 1814

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Maluda (a outra margem)

Podemos sustentar que o Universo é uma incomensurável rede cristalina, logo, um contínuo geometricamente arranjado.

Lisboa, Maluda 1966.
Imagem: maluda.eu

Pois, de facto, o espaço infinito abriga átomos e partículas subatómicas que se relacionam, congregam, interagem, estabelecendo afinidades, co valências, ligações, tensões, distanciamentos e proximidades, refazendo mundos dentro duma certa arquitectónica em que a matéria (ou a matéria/espírito) se comporta e organiza de acordo com leis que ficam muito além das formulações teóricas conhecidas.

Tejo 16, Maluda, 1971.
Imagem: maluda.eu

Será então pertinente dizer que o Universo – ao mesmo tempo conservador e auto-transformador – contém um ADN matricial cujas peças, repetitivas, não impedem que a estrutura geral e o rigor filético fundamental, que criam a unidade e diversidade da Vida, se enriqueçam.

Lisboa 33, Maluda, 1987.
Imagem: maluda.eu

Esta teleologia, que associo aos conceitos de ontogénese (J. Monod) e de cosmogénese (P.T. Chardin), não será estranha ao sentido e conteúdo de algumas das propostas “geometrizantes” que podemos encontrar na Arte contemporânea.

Tejo 10, Maluda, 1985.
Imagem: maluda.eu

Simetria, simplificação formal, esquematização, etc, são atributos relevantes do processo geométrico. 

Tejo 11, Maluda, 1985.
Imagem: maluda.eu

Segundo certos autores, esta tendência terá como recurso consciente a partir das antiguidades Egípcia e Mesopotâmica.

Lisboa, Maluda.
Imagem: maluda.eu

Surgia da necessidade de compatibilizar o carácter fugaz e complexo da actividade humana que crescia em planos, motivos e categorias simbólicas – com a representação simples e durável dessa actividade.

Lisboa 43, Maluda, 1992.
Imagem: maluda.eu

Quando o cubismo se insinuava no estilo de alguns quadros de Cézanne, os elementos simplificados que o pintor fixava nas suas composições conferiam o poder da síntese e da essencialidade.

Lisboa 26, Maluda, 1983.
Imagem: maluda.eu

Mais tarde, e até aos nossos dias, a componente geométrica é encontrada numa larga panóplia de criadores pictóricos: Robert Delaunay, Mondrian, Malevich, Picasso, Arp, Ben Nicholson, Egil Jacobsen, Vieira da Silva, Vasarely, Kidner, Noland, e tantos outros.

Tejo 06, Maluda, 1975.
Imagem: maluda.eu

Tais artistas representam várias correntes da Arte Moderna, desde o Raionismo ao Suprematismo, desde os Cubismos às Abstrações geométicas e à Op-arte. (1)


(1) Geometria de Maluda: Uma alma fascinada pelas formas, extracto da introducção da entrevista de Hugo Beja a Maluda, publicada na revista Galeria de Arte (Nº 5, Ano 2, Junho/Agosto de 1996)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Courelas e Figueirinhas

Em 1695 o Conde de Assumar, D. João de Almeida Portugal, arrendou ao Capitão-Mor Álvaro Pereira de Carvalho, uma propriedade no sítio "aonde chamam as figueirinhas [à direita na imagem]" que contactava "da banda do Sul com a estrada pública que vem da Mutela para Cacilhas... e do Norte com a estrada que vem de S. Sebastião para Cacilhas". (1)

Almada, vista sul tomada do mirante da Quinta dos Bichos, posteriormente, Quinta da Alegria,
Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Conforme Pereira de Sousa (op. cit), [Azinhaga de Mata-Cães] uma designação popular para a Azinhaga das Courelas, do lugar que no século XIX e até à viragem do século XX começava na Rua José Fontana [ao centro na imagem].

Almada, vista em primeiro plano da Estrada da Mutela e, em segundo, da Azinhaga das Courelas,
Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem:  Biblioteca Nacional de Portugal

Este nome surge relacionado com um proprietário conhecido por Mata-cães da Mutela, que terá vivido em Almada antes de 1682, "apodo" cuja atribuição seria mais tarde reconhecida a uma outra pessoa no século XIX, sem que qualquer relação se possa estabelecer em concreto.

Almada, vista em primeiro plano da Estrada da Mutela e, em segundo, da Azinhaga das Courelas,
Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem:  Biblioteca Nacional de Portugal

Verifica-se no entanto que em 1857 esta designação aparece relacionada, com a compra de "uma Quinta chamada S. Luís, vulgo Matacães, próximo da Mutela", cuja localização seria correspondente à zona da Rua Luís de Queiróz.

Almada, vista em primeiro plano da Estrada da Mutela e, em segundo, da Azinhaga das Courelas,
Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem:  Biblioteca Nacional de Portugal

Veja-se o esquema da estrutura de quintas [que consta na Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, de 1813, e aquela] elaborada por Atkins et, al. (2006, p. 46), cuja localização é indicada entre as quintas das Serras, Armeiro, Caranguejais e S. Sebastião de Baixo;

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal, José Maria das Neves Costa (detalhe), 1813,
Estrutura de Quintas em Almada. Atkins, 2006.
Imagem: Praça da Liberdade, Almada - Apropriação e vida da praça no século XXI

ou o mapa de Almada em 1902, onde a zona correspondente a este lugar revela um enorme vazio delimitado por um polígono de quatro ruas ou caminhos, cuja configuração se manteve até à actualidade,

Corpo do Estado Maior do Exército, assinaladasas quintas, a Estrada Distrital 156, a Estrada Real 79 etc., 1902.
Imagem: IGeoE

muito próxima daquela que representam o traçado da Av. Dom Nuno Álvares Pereira, com a Rua Luíz de Queiróz, a Av. Rainha D. Leonor e a Rua Padre António Vieria. (2)


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.
(2) Luís Gonçalves, Praça da Liberdade, Almada - Apropriação e vida da praça no século XXI

Artigos relacionados:
Horizontes
O centro cívico
Praça da Renovação
Largo Gil Vicente

Outras leituras:
Revista pittoresca e descriptiva de Portugal com vistas photographicas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1861-63
Encyclopedia of Nineteenth-Century Photography

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Cova da Piedade, 1874

Atravessando o Tejo, e desembarcando em Cacilhas, outro campo de distracções se nos depara.

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Onde ainda ha pouco se encontrava por unico vehiculo o proverbial burro de Cacilhas, com o seu peito hirsuto de animal faminto, burro explorado cruelmente pelo burriqueiro seu dono, que engordava de rico á proporção que emmagrecia a olhos vistos o animalejo, capital vivo da sua industria asinina, encontram-se hoje numerosas seges e carros, que por uma estrada fácil e curta conduzem os passeantes á Cova da Piedade.

Chafariz de Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 4, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Confessemos que este nome tem um não sei quê de mysticismo sombrio. Cova da Piedade! Não faz lembrar esta designação os titulos d aquellas paisagens, ora melancólicas, ora medonhas, entrevistas por Bunyan na "Viagem do Peregrino" [John Bunyan (1628-1648), The Pilgrim's Progress], uma das obras primas da litteratura ingleza e da imaginação humana?

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal


É nessse livro de comoçoes violentas e de horríveis visões da alma, que se rasgam as gargantas dos montes mais sinistros que a nossa imaginação pôde phantasiar; é ali que se abre a nossos olhos o abismo sombrio e terrível a que Bunyan chamou "O valle da sombra da morte", valle tenebroso, em que se erguem pilhas de ca da veres desfigurados dp gente morta pelos gigantes que hahitam aquellas cavernas. A cidade de destruição, a lagoa tristonha, o valle da humilhação, valle retirado e verdejante, não podiam ter por companheiros mais outro logar que se chamasse "A cova da Piedade"?

Entrada do Jardim, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900

Pois apesar do titulo, que convida aos terrores do ascetismo solitário, não conhecemos logar que mais se anime de rumores profanos. Fez-se um jardim, que está povoado de arbustos ainda tenros. Ao meio d'elle, um coreto onde ás tardes dos domingos uma orchestra entretem os passeantes. Á roda do jardim edificações novas, alegres, e a poucos passos d'ali o hotel Club, que respira limpeza e aceio.

Hotel Club na Cova da Piedade, inaugurado a 31 de maio de 1874.
Imagem: Hemeroteca Digital

Á beira da estrada o Salão Veneziano, com os seus gelados e sorvetes e o seu champagne democrático, porque se serve aos copos, e cada copo a troco de um tostão. Digam-me se ha cerveja mais barata do que este champagne, que por escrupulos de seriedade não se atreve a espumar nos copos, tão grave é a sua compustura e tão urbana a sua effervescencia mesmo debaixo dos tectos de um salão veneziano, titulo que nos despeita na memoria as orgias pintadas por Paulo Veroneso, e as desinvolturas tempestuosas do Byron na poética cidade dos Doges.

Terreiro da Cova da Piedade, actual Largo 5 de Outubro.
Imagem: CMA cf. Fábrica de molienda António José Gomes

Os ranchos cruzam-se com vivacidade meridional; no hotel nota-se continuo fluxo o refluxo de hospedes; de toda a paisagem allumiada pelas scintillaçòes e pelos raios do nosso bello sol exhala-se um aroma de contentamento, e de bem estar; n'uma palavra, respira-se na margem de além Tejo o ar saudavel da civilisação, ar perfumado de um certo conforto, que até agora não era o distinctivo dos areiaes ardentes e das povoações tristonhas da outra banda.

Cova da Piedade, Rua das Salgadeiras.
Imagem: CMA cf. Fábrica de molienda António José Gomes


N'um paiz, em que o gosto pelas diversões marítimas fosse um sentimento popular, profundamente gravado na imaginação e nos hábitos communs, que admiravel theatro lhes estava aberto na vasta enseada do Tejo, a qual encurvando-se largamente diante da cidade, e bordando-se em suas margens ora de vinhedos, ora de praias arenosas, ora de pinhaes, ora de logares e de villas, que na brancura do seu cáio parecem lavradas de alabastro, aproxima-se de Lisboa pelo pontal de Cacilhas, que, n'este ponto, dá á margem fronteira, entalada entre a enseada e o rio, a apparencia de um isthmo  [...]

Paisagem com casa, Bertha Ortigão.
Cat. Palácio do Correio Velho, 17 de dezembro de 2008.
Imagem: Arcadja

Que vastidão de aguas, e que largueza de margens, ali e em toda a extensão do rio, desde Marvilla diante da qual elle se espraia como um mar mediterrâneo (na expressão feliz de Garrett) até á sua foz! [...]

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Imagem: Fábrica de molienda António José Gomes

Com o "fora da terra" paralysou-se de todo o movimento da sociedade elegante [...] (1)

Do Commercio do Porto
Cartas Lisbonenses, Visconde de Benalcanfor [Ricardo Augusto Pereira Guimarães]


(1) Diário Illustrado, 31 de julho de 1874

Artgos relacionados: 
Cova da Piedade elegante e encantadora em 1874
Hotel Club da Piedade
Os festejos de 24 de julho de 1874

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um romance da vida real (deambulações de Childe Harold...)

Mr. Glenville e Amelia, tête-à-tête nas ruinas do Castelo de Almada...

Childe Harold, veio a Lisboa, para escrever um poema, ao qual deu o nome "Portugal"; para a informação que prestou sobre o país, cujo nome tem, poderia muito bem ter sido escrito em Grub Street; pois depois de um rápido olhar para a Nova e a Velha Lisboa, instalou-se num antigo convento de Sintra, e, fechado do mundo, começou e terminou seu poema em seis meses.

Historical military picturesque..., George Landmann, Sintra (onvento da Pena).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Começou por descrever a sepultura de Fielding, o romancista, e terminou com a informação, que a Colina de Almada foi o assunto de algumas linhas escritas por Mickle, tradutor do Lusíadas [...]

Vista de Lisboa tomada de Almada (detalhe).
Imagem: Byron, Childe Harold's Pilgrimage..., London, John Murray, 1869

Amélia, que ele imaginara estar a sofrer de uma recaída na sua indisposição, reclinou-se descuidadamente sobre o ombro do honorável Mr. Glenville, que lhe lia o seu interminável poema, que ela ouvia com aparente prazer. 

,
Amelia Osborne (1754–1784) por François-Hubert Drouais.
Marquesa de Carmarthen, Baronesa de Darcy, Baronesa de Conyers, Condessa de Mértola.
Primeira esposa de John "Mad Jack" Byron, pai de Lord Byron.
Imagem: Wikipedia

Um ruído, que Freeman fez ao tropeçar em algumas pedras soltas, fez com que se levantassem e Glenville colocasse o braço dela no seu; dirigiram-se para a praia, entraram num barco, e partiram para Belém [...]

Historical military picturesque..., George Landmann, Torre de Belém.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Embora Harold lhe perguntasse se tinha saído, Amelia nunca lhe disse que tinha ido à Colina de Almada; e Glenville, que o chamou para lhe dar boas-vindas a casa, queixou-se que lhe não tinha sido possível acompanhá-la nos seus costumados passeios nocturnos. Havia decepção e dissimulação nisso, o que Harold não gostou; não havia necessidade de manter em segredo que ela tinha saído com Glenville, e assim, fez Harold suspeitar que nem tudo estava certo [...]

Harold não veio para jantar, nem para dormir: Amelia esperou ansiosamente até à meia-noite, quando um criado lhe trouxe uma carta, como a seguinte:

"Braganza Hotel [rua Do Thezouro Velho, 36], Lisboa

Senhora,

A sua decisão de embarcar para Inglaterra tem toda a minha aprovação, e onde quer que vá, leve consigo os meus melhores votos de saúde e felicidade. Admito que o seu desejo súbito de deixar Lisboa me surpreendeu e teria feito muito mais, se eu não estivesse preparado para uma mudança nos seus sentimentos, ao tê-la visto com o seu amigo entre as ruínas do Castelo de Almada, num momento em que me tinha escrito a dizer que estava muito doente. 

Embarcações no Cais da Misericórdia. Aspecto do Hotel Bragança, ao fundo, na metade esquerda da imagem.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Durante toda a vida tenho tido por costume dar as minhas opiniões livres de disfarces, e se eu a tivesse deixado de a amar, ter-lho-ia dito sem hesitação. Onde não há confiança mútua, não pode haver real afeição, e quando a senhora se inclinou à dissimulação, perdeu tudo, excepto a minha amizade [...]" (1)


(1) John Harman Bedford, Wanderings of Childe Harolde: A Romance of Real Life..., London, Jones & Co., 1825

Artigos relacionados:
Colina de Almada
Ilustrações de Finden à vida e obra de Byron
Castelo de imagens e fantasia
Margens do Tejo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Vista de Lisboa, panorama de Barker

De facto, quando descrevia Lisboa vista do outro lado do rio em dezembro de 1812, o Major Augustus Frazer da "Royal Horse artillery" tinha explicitamente Henry Aston Barker na ideia: "O dia estava lindo, o cenário talvez o mais belo do mundo. O castelo de Almada foi o lugar a partir do qual o Panorama de Barker foi tirado." (1)

Lisbon from Fort Almeida Almada, Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden.
Imagem: Cesar Ojeda

Como, a começar a nossa próxima viagem, deveremos deixar Lisboa, sem a perspectiva de aí regressar, olhando um pouco por nós, se possível, sem negligenciar algo que possa merecer uma visita;

rapidamente nos ocorreu o morro de Almada, oposto a Lisboa, até então não nos tinha atraído subir o íngreme declive, e do seu cimo olhar a capital de Portugal, a partir dessa vantajosa posição, sendo que aí uma parte dessa cidade pode ser abrangida com uma simples passagem do olhar, mais do que em qualquer outro lugar:

Historical military picturesque..., George Landmann, View up the Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

tendo perdido tantas oportunidades como perdemos para nos oferecer esta vista altamente gratificante, teria sido verdadeiramente imperdoavel, não fosse o termos propositadamente deixado esta delícia para depois.

Historical military picturesque..., George Landmann, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Uma viagem a Almada não necessita preparação, exceptuando um cesto com comida, para saborear à sombra de uma laranjeira próxima das margens do rio. Contudo, alugámos um pequeno barco, para nos levar até à vila de Almada, oposta à parte ocidental de Lisboa... enquanto a cadeia de colinas da outra banda, o Almaraz, se estende na direcção da entrada do Tejo até se defrontar com a velha Torre de Belém.

Historical military picturesque..., George Landmann, Mouth of the Tagus.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infindavel seria tentar descrever a multitude de aspectos que o semicírculo a norte apresenta; mas uma vista panorâmica, desenhada com muito cuidado a partir do original de Mr. Baker, que muito atenciosamente a cedeu ao autor com esse propósito, se apresenta [...]

O original foi desenhado por Mr. Barker [Henry Aston Barker (1774–1856)], a partir do qual pintou o seu muito admirado e correctamente fiel Panorama que exibiu no Strand em Londres [Barker's Leicester Square exhibitions]: 

Historical military picturesque..., George Landmann segundo Henry Aston Barker, Panorâmica de Lisboa e do Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

a gravura para este trabalho compreende a vista desde a Cidadela de Cascais, o ponto mais distante à esquerda, até ao extremo ocidental que é possível avistar desde a colina de Almada; 

Cross-section of the Rotunda in Leicester Square in which the panorama of London was exhibited (1801).
Imagem: TATE

ás pessoas que podem ter tido a boa sorte de ver o Panorama, esta gravura não conseguirá dar o justo sentido à extensão da beleza desta cena;

Robert Barker’s Leicester Square Panorama.
Imagem: The Regency Redingote

todavia espera-se que a tentativa de adicionar esta informação não se revele infrutífera: ver as gravuras intitulados: Mouth of the Tagus, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal, e View up the Tejo. [cf. Capítulo XLIII. Uma viagem a Almada, Vista de Lisboa, as colinas fortificadas, e o  Castelo de Almada (...)] (2)


(1) Gavin Daly, The British Soldier in the Peninsular War..., 1808–1814
(2) George Landmann, Historical, military, and picturesque observations on Portugal..., 1818

Alguma leitura adicional:
Harry Sutherland, Adventures with the Connaught Rangers, 1809-1814
John Kincaid, Adventures in the Rifle Brigade, in the Peninsula... from 1809 to 1815

sábado, 3 de dezembro de 2016

Em landaulet pela Outra-banda

Ao meio dia, embarcávamos, eu e um amigo, no Caes do Sodré. 

O "landaulet" entra facilmente para a coberta do vapor, que faz a travessia entre Lisboa e Cacilhas, de meia em meia hora. 

Lisboa, Estação da Parceria, c. 1900
Imagem: Delcampe

Dia de Reis, festivo, lindo creador!

O barco larga da ponte, numa trepidação agradável, corta as aguas, aproando ao pontal da outra banda. Gaivotas abanam-se com seus leques de pennas brancas, ou estendem as guias nos voos largos. Pairam umas, outras embicam á babugem da pescaria incauta, outras, ainda, descançam da faina no balançar suave das gordas ondulações do Tejo, que, áquella hora, rebrilha, como cristal liquido num tanque immenso.

Lisboa, canoas junto ao cais da Parceria.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Da curta viagem atraca o Lisbonense, e, após o desembarque dos passageiros, o "landaulet" subiu a prancha e seguiu num andamento modesto, emquanto cobriamos os joelhos e se marcava a hora — doze e vinte minutos.

— Extraordinário dia! Glorioso dia! exclamámos. Eu, não sei com que expressão ; a do meu amigo era radiante.

— Dias como este — proseguiu elle — nunca os vi, nem na Europa nem na America!

Não se imagine que a apreciação é d'um portuguez.

A pouco e pouco, a marcha do vehiculo augmenta. Passada a Cova da Piedade, a paisagem attrahe, exuberante de viço e de frescura.

Brasier Landaulet 1908 por Alfredo Roque Gameiro ou Santos Silva, c. 1909.
Imagem: Hemeroteca Digital

A estrada, como faixa de linho crú, serpenteia pelo meio de perfis que projectam sombras caprichosas. Por toda a parte, sob o azul immaculado e luminoso do ceu, matizes de harmoniosidade ténue, sem perderem a intensidade dos seus grandes valores. De um lado, serras alcantiladas, gigantescas e avermelhadas saibreiras, sulcadas d'alto abaixo; do outro, terras quentes, verduras baixas. Oliveiras de um verde acinzentado, em disposição casual, descem as collinas, e, nos promontórios, perto como longe, erguem-se pinheiros, perfilados como columnas de exercito.

Esta symphonia de cambiantes, luz e sombras dá refracções opalinas, como seda furta-côres. 

Mas logo outros aspectos surprehendem, tão rapidamente, como rápida é a velocidade do transporte, furando a paisagem intima com a rapidez de uma flecha expedida pela expansão de forte e opprimido arco, emquanto, ao longe, o panorama se deixa admirar sem turbações, o Tejo, a alvejante casaria de Lisboa, aldeias e logarejos, isolados ou reproduzíndo-se nos espelhados braços do rio, que entram no Seixal, na Arrentella, povoações mais abundantemente banhadas, quando nas aguas vivas. 

Palácio da Quinta da Amora, Cheira-ventos, 1899.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Depois, nas planícies, vastos pinheiraes, dando arrendadas sombras, derramando pura seiva, ou choupos altos, ladeando rectos kilometros de planos e suaves caminhos, cuja perspectiva parece observar-se atravez d'um cano de espingarda, e que o automóvel transpõe como uma bala, para caminhar mais veloz, em campo aberto.

A vista percorre os campos; não ha terras maninhas; tudo arroteado. Raro vêr selvas bravias, raro as que ficam de pousio, raro o arbusto maninho; tudo cresce e se avantaja. 

Com suas casitas brancas, dominadas por campanários brancos, lá se vêem a Aldeia de Paio Pires, Coina, Corroios e outros grupos de albergues ruraes, cercados de arvoredo e palissadas, tal qual repregos scenographicos.

Seis de janeiro, e já, nos prados, precoces florinhas amarellam e branqueiam, como prenuncio de primavera! O ambiente ri, com um riso que convida a viver risonhamente. E serem tão poucos — digamol-o — os lisboetas que conhecem e gozam os variados aspectos d'esta estranha e empolgante paisagem, a pouca distancia da capital!

— Ó alfacinhas, isto de "fazer" a Avenida periódica. e obrigatoriamente, numa atmosphera poeirenta, exhalando aromas de excremento de bestas e de censura pegada, é asneira, faz mau sangue, irrita o espirito e enruga a testa. Vós, que tendes magníficos meios de transporte, tirados por soberbos cavallos e possantes motores, largae o picadeiro e vinde vêr a natureza purificadora e bem criada, pois, ahi, até a passarada vos desconsidera...

Corroios, Cheira-Ventos, fotografia de Penha Lopes, 1921.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Nestas considerações nos levava o automóvel intruso, producto moço do engenho humano, e se internava, pesquizando o que o mundo tem de mais velho, com roncos d'um som inarticulavel com a sua mocidade, prevendo e prevenindo, arrogantemente, numa curva, algum viandante serrano, alheio ao progresso e despreoccupado.

O meu companheiro mandou parar. Estávamos em Azeitão.

Villa Nogueira (Azeitão), Antigo Palácio dos Duques de Aveiro.
Imagem:  Fundação Portimagem

Subimos alguns degraus, que dizem para o terreiro do velho palácio dos duques de Aveiro, com seu pelourinho. 

Uma hora de historia, de profundas recordações! Foi aqui preso, numa negra noite de novembro, D. José Mascarenhas, oitavo duque de Aveiro, decapitado no caes de Belém, no janeiro seguinte de 1759, como se sabe.

Lá está na fachada principal do palácio, sobre a janella predominante e central, arrasado, o escudo da nobre familia, que tinha o direito de nomear, senhores de baraço e cutello, e que, por implicada no attentado contra a vida de D. José I, Pombal tentou exterminar. Na sala de baile e no guarnecimento de interessantes azulejos, talvez dos fins do século XVI, ha, num dos vãos, entre duas janellas, a falta de nove azulejos, que completavam a parte central da composição, onde presumo estaria, antes do sinistro espectáculo de Belém, o escudo a que alludi.

A caracteristica vivenda, que tem passado por differentes vicissitudes, pertence actualmente ao sr. Oliveira Boal, cujos filhos nos receberam com amabilidade e nos mostraram os azulejos d'aquella e das mais salas do histórico palácio.

D'aqui mais uma vez os cumprimento, muito agradecido.

Nessa Cintra do Alemtejo, como lhe tenho ouvido chamar, com acerto, está a decrépita Bacalhôa, antigo e solarengo retiro dos Condes de Mesquitella, hoje vasio d'almas, mas ainda cheio de arte. A este museu cerâmico de azulejos e esculpturas, ao palácio do sr. Boal, á artística vivenda que habitou o grande homem de sciencia, Manuel Bento de Sousa, conservada por seu filho, o dr. António Formigai de Sousa, e cujos azulejos que decoram as salas são notáveis; á casa de Galhariz, e outras mais, perímetro que comprehende a Villa Fresca e a Villa Nogueira, para onde, outr'ora, nobres de Portugal iam abrigar-se e descançar, fugidos aos calores da capital e ás cerimonias da corte, juntem-se extensas e bem amanhadas terras, arvores de fructos finos, arvoredos sombraes de grandiosa ramaria, e veja-se quanto é aprazível a extremenha e dominadora Azeitão.

De novo nos installámos na commoda "carrosserie", subindo a manta sobre os joelhos. Á cautella, concheguei o chapéu, e, emquanto o meu amigo praticava os mesmos cuidados, o pelludo "chauffeur" punha em andamento o automóvel, com três roncos de corneta, para afastar do trilho uma "pennosa", amarella e estúpida.

Proseguimos, cortando o ar, ao mesmo tempo que a paisagem corria para nós, com reciproca ancia.

De Azeitão a Setúbal, desce-se, mais ou menos. Á mão sinistra, sobre a montanha, a capellinha das Necessidades, branca como veste de noiva, e, num plano mais afastado, sobre o pincaro d'outra montanha, o Castello de Palmella, ostentando as suas ruínas, envolto numa meia tinta azulada.

Villa e Castello de Palmella, ed.Mendes Estafeta, 20.
Imagem:  Fundação Portimagem

D'este ponto, o mais elevado da estrada, vê-se uma vez mais Lisboa, agora coroada pela serra de Cintra, num tom fulvo, que parece vêr-se por transparente gaze d'um azul claro. 

Á mão direita, o inconfundível sello da paisagem portugueza, num que outro cabeço, como cristas brancas, velas em cruz, gordas de vento, moendo pachorrentamente o pão de cada dia, ao som de harmoniosa e interminável zoada.

O caminho ajuda; e, tão depressa como o dizer, se transpõe o Valle de Alcube.

Rápido, começam a apparecer vestígios d'agglomeração humana, modestas notas de civilisaçao: — adultos, creanças, estendaes de roupas variegadas, animaes domésticos á gandaia, que se assustam e balburdam; o gallinaceo, azas abertas, corre indeciso ; os condemnados grunhem; os cães ladram e levam-se como lebres, á estribeira do automóvel ; começam a apparecer vendas escancaradas, o bulício augmenta, vêem as ruas, a cidade — Setúbal!

Esta é atravessada em solavancos, voltas rápidas, curvas apertadas, que os pneumáticos suavisam, com a sua elasticidade. A corneta ronca com teimosia, a garotada grita, gesticulando, atirando com os "bonnets" e barretes á passagem do vehiculo e com tal expressão o faz, que deixa em duvida se a manifestação é amiga, se hostil!

À passagem  do comboio, José Malhoa, 1896.
En voyant passer le train, gravura de Charles Baude, segundo o quadro perdido de Malhoa.
Imagem: Provocando

O "chauffeur", sem hesitar, enfia pela estrada que leva a a Outão.

Quando nos defrontámos com a magestosa e tranquilla bahia do Sado, que parecia dormitar sob uma cobertura de vidro coalhado, o meu solicito amigo, de pé, braço estendido, indicou meio circulo, com que abrangia todo o scenario, e gritou:

— Qual Nice ou Route da Comiche, qual lago de Como, qual phantasia, qual historia! Isto é uma parte do Paraiso, isto é, simplesmente, a gloria, num clima de 15 graus em Janeiro!

E, com duas palmadinhas da sua mão esquerda no meu hombro direito, accrescentou:

— Vocês nem sabem o que teem!

E o incansável "Brazier" [Brasier] com força de vinte cavallos e fôlego de outros tantos gatos, cortava a pittoresca paisagem, pela estrada, a meia encosta, que margina docemente o lindo Sado.

Setúbal, Palácio da Comenda (Conde Armand).
Imagem: Delcampe

Depois, numa situação invejável, sobre as aguas, a Casa da Commenda, a que o seu proprietário, o conde de Armand, chama: "Mon Paradis", cujas galerias alpendradas dominam o grande lago numa ampla expansão de horizonte. Nas, terras adjacentes, logradoiros ajardinados e um vasto viveiro de palmeiras, verdes, com reflexos frios, azulados.

Após mais algumas curvas pela declividade da estrada, estávamos em Outão, "terminus" da nossa ida.

A volta fez-se d'uma só tirada. Logo ao primeiro kilometro, cruzámos com um "Peugeot" cheio de senhoras, e fora, ao lado do machinista, um senhor. Estavam como numa tribuna, admirando o supresito glorioso que o Creador deixou ás creaturas, com a sua grande obra — Agua, Terra e Luz!

O meu instruído amigo, que rende culto á Arte, que entende de medicina e de mechanica, disse:

— São galantes, o homem é medico, a machina de força superior á do nosso Brazier — trinta cavallos. Vieram de Lisboa e voltam para lá, como nós.

— Quanto a ter o motor mais força, pouco importa; se não tem "fôlego de gatos", não passa adiante! Estive para responder, o que não fiz por prudência...

Num estremecimento quasi ligado, os pneumáticos rolavam pelo macadam tão acceleradamente, que davam a illusão de tambores mechanicos a puxarem por larga correia d'anta, a cujas orlas se prendia toda a paisagem próxima.

E assim corriam para a minha observação, invertidamente, os motivos aldeãos e campestres que, pouco antes, se tinham insinuado tão grandemente. Ao fundo, o Tejo e toda a sobranceira casaria, esse vasto burgo, o meu burgo, scintillante de vidrarias, dispunham-se para vir ao nosso encontro, como columna de couraceiros, num sopeado e surdo passo, sobre tapete azulado.

Quando deixávamos Villa Nogueira e desciamos para os brejos de Azeitão, senti que a velocidade do automóvel era desusada e que tendia a accelerar-se ainda mais. Com a expressão d'um fugitivo, o "chauffeur" olhou para traz. De tal maneira me impressionou o seu olhar, que me voltei, cheio de curiosidade. 

Era o automóvel com que havíamos topado á sahida de Outão que nos seguia, e se propunha tomar a dianteira. Então, nas rectas, nos caminhos planos e pelas descidas, tive a impressão de que o nosso "landaulet" não tocava no solo, voava! Horrorisei-me tremendamente! Lembrei-me de que o travão podia partir-se, os pneumáticos podiam rebentar e, de que, em qualquer d'estes casos nem a alma se me aproveitava, e maldisse o ter-me conciliado com tal meio de transporte! Recordei a minha recusa ao automóvel e á companhia de Frederico Bettencourt, quando este amigo, amavelmente, veio a Lisboa, para me levar para Santarém, e eu, por precaução, optei pelo ronceiro mixto das 9 e 20 da manhã. 

Aterrorisado por uma sobreroda, que me deslocou desagradavelmente, balbuciei: 

— Ai! meu rico Pai do Ceu, Nossa Senhora, valhame Deus! Jesus, Maria José! E, por achar insufficiente a minha breve e atrapalhada supplica, evoquei o dia um de novembro, com exaggerado requerimento. 

Brasier 16 20 HP de, landaulet de 1906.
Imagem: Delcampe

Convencido do grande susto em que eu ia suspenso, de repente, com uma cotovellada, o meu amigo berrou:

— Um azulejo naquella parede: 1751, Corroios. Tome nota!

E continuou a troçar de mim com judiarias, concluindo por attribuir o meu receio á minha fraqueza. Que o que eu tinha era fome, e, certo da recusa, passou-me para as mãos o cartucho das "brioches" inda por encetar, que, com surpresa sua, eu — esperando a morte — comi, desde a primeira á ultima!

Quando acabei de devorar os apetitosos e fofos bolos venezianos, declarei ao meu amigo:

— Isto é de familia. Houve uma senhora da minha gente que, quanto maior era o desgosto, mais a apoquentava a vontade de comer!

O destro "chaffeur" volta-se uma vez mais, procurando ver atravez da nuvem poeirenta que a vertiginosa carreira do vehiculo levanta, e nada de "Peugeot"!

Momentos depois, o furioso "Brazier" encosta os pneumáticos á cancella do embarcadoiro de Cacilhas. 

Ao entrarmos no vapor, o radiante sol, o sol portuguez — o meu sol, como eu lhe chamo, porque nunca o vi tão resplandecente e meigo fora de Portugal — descia a beijar o Oceano; e, quando o Lisbonense se poz em marcha, atravessando o soberbo Tejo — na imponente Natureza dois quadros surprehendiam, deslumbravam.

Á esquerda, o horizonte, como um diadema de fogo, marcado ao centro por um rubi enorme, sanguíneo, de brilhantes e trémulos raios, reproduzia-se em cada ondulação do mar palpitante, numa orgia d'oiro derretido!

Vista panorâmica de Lisboa ocidental, Maria Guilhermina Silva Reis.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Á direita, a lua, pálida, contrastava, sahindo vagarosa das aguas. Parecia uma medalha de prata fosca com lavores foscos, desprendendo-se de um comprido fio de pérolas, que se balouçava á tona d'agua, descrevendo uma entrecortada recta, do disco até ao costado da embarcação. O espectáculo era tão grandioso, que até os aturdidos fazia exaltar. 

O vapor Victória.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Uma passageira, que decerto jantara de garfo na Cova da Piedade, dizia para os seus alegrados companheiros, num riso alvar, gargalhado até ás orelhas:

— Isto é munto ca... ti... ta! (1)


(1) José Queiroz, Da minha terra: Figuras Gradas, impressões de arte, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1909