terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Egreja do Espírito Santo

Encontra-se bastante arruinada esta pequena mas elegante egreja situada no centro da vila d'Almada, em cujo templo estão patentes aos fieis as sagradas Imagens da Paixão, que antigamente sahiam em procissão, no domingo de Ramos, Imagens de subido valor artistico de muito merecimento.

Largo do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

A irmandade que alli presta culto, é pobre, e não possue rendimentos para que possa accudir ás obras indispensaveis, de que carece a referida Egreja, que é propriedade do Estado, e n'esta conformidade o rev.° parocho, com a mai-ria dos seus parochianos, habitantes d'Almada, assignados em um memorial, pediram ao governo as precisas obras, a exemplo do que se tem feito a outras Egrejas, as quaes não são pertencentes ao Estado. 

Rua Dr. Francisco Inácio Lopes, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Este pedido foi feito e entregue no ministerio das obras publicas em 24 de maio de 1897, sem que até hoje tenha tido deferimento. 

A velha travessa do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Pedimos ao sr. ministro das obras publicas, se digne ordenar a desejada obra, não só pelos motivos expostos, como tambem pela conservação dos objectos de culto que alli existem, e proporcionar trabalho a alguns dos muitos operarios que se encontram desempregados.

Eduardo Tavares [As Instituições, propriedade de] (1)


(1)  As Instituições, domingo 20 de março de 1898

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Salão das carochas
Almada no espólio do arquitecto Cassiano Branco

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Fábrica moderna para produção de óleo de fígado de bacalhau

A Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau [SNAB] completou a construção de uma nova fábrica para produção de óleo de fígado de bacalhau no Ginjal, Cacilhas, no município de Almada.

Ginjal, vista aérea c. 1960.
OBSERVADOR

A fábrica consiste em três edifícios: (1) o laboratório, escritórios e edifícios administrativos; (2) a própria fábrica; e (3) abrigo para tanques de armazenamento.

Vista da entrada da fábrica. À direita, o edifício administrativo; à esquerda, a fábrica, vista leste.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A capacidade de produção é de cerca de 30 toneladas de matéria-prima por oito horas diárias, variando de acordo com o número de tratamentos efectuados.

Vista do armazém. Abriga tanques metálicos para armazenamento.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A capacidade de armazenamento é de aproximadamente 1.100 toneladas, de acordo com um despacho de 30 de agosto da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa.

Interior da fábrica mostrando os tanques de operação.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A fábrica está equipada para neutralizar ácidos gordos livres; limpeza e secagem; desodorização parcial; filtragem; e extração de estearinas e outros resíduos. Tratamentos ainda mais especializados podem ser realizados no futuro.

Interior dos armazéns que abrigam os tanques de armazenamento.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A fábrica está ainda equipada com uma grande secção para encher, rotular e embalar as garrafas com um nível elevado de produção e pode processar o óleo de fígado de bacalhau para qualquer uso conhecido, seja para nutrição humana ou animal. (1)

Outra vista do interior da fábrica.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

Um importante documento que, possivelmente, marca o início da distribuição do óleo de fígado de bacalhau nas escolas, sobretudo para os alunos mais carenciados, constitui a Circular nº 2628 de 4 de Janeiro de 1956. Como consta nessa circular que chegou às escolas naquele ano:

"Os serviços da Direção Geral do Ensino Primário, estão a distribuir pelas cantinas escolares do Distrito, elevado número de frascos de óleo de fígado de bacalhau, destinado a completar a alimentação das crianças pobres que são beneficiadas por aquelas instituições. Em cumprimento de despacho superior determina-se aos senhores diretores das cantinas citadas: 

1º.) - que promovam seja efectuada pelos agentes de ensino a conveniente propaganda no sentido de se ensinar aos estudantes a utilidade do uso do óleo de fígado de bacalhau; 

Rótulo para frasco.

2º.) - sejam conservados, cuidadosamente lavados, os frascos do óleo, depois de vazios, tendo em conta a futura utilização; as embalagens devem ser cuidadosamente conservadas; 

3º.) - que informem diretamente a Direção sobre a data do recebimento, número de frascos e despesa que, porventura, tenham efectuado com o transporte."

Crianças de Bradford Inglaterra tomam dose de medicamento.
PostcardEddie

Segundo as fontes consultadas, distribuía-se o óleo de fígado de bacalhau “DÓRI”. Este óleo era dado diariamente na sala de aula aos alunos com vista ao melhoramento da sua condição nutricional e de saúde. (2)

Embalagem.


(1) Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955
(2) Monica Truninger, A evolução do sistema de refeições escolares... 2012

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O Grémio

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Almada em 1760

Lançando hontem á noite os olhos, por acaso, sobre um livro portuguez, e vendo o frontispicio que fora impresso em Lisboa occidental, perguntei o que significava aquelle "occidental", e responderam-me que esta Lisboa aqui, situada na margem direita do Tejo, é assim chamada, para se distinguir de outra Lisboa, que está do outro lado do rio, à qual as escripiores portuguezes dão a denominação de oriental 

Vue de l’entrée d’un port animé, Alexandre Jean Noel (1752-1834).
Cappriccio Lisbonne, la tour de Belem.
De Baecque

[o erro em que, de certo, involuntariamente cahiu aqui o estimavel auctor das Cartas Familiares encontra facil correcção nas breves palavras que da Mappa de Portugal 5.ª parte, cap II, pag. 247 de João Baptista de Castro, transcrevemos em seguida: "Querendo o fidelissimo rei D. João V promover e exaltar com ardentissimo zelo o maior culto de Deus e o esplendor da sua egreja, impetrou do summo pontifice Clemente XI a bulla aurea, que começa: In supremo apostolatas solio, expedida nos 7 de novembro de 1716, pela qual fiz erigir na conllegial insigne da real capella uma cathedral metropolitana e patriarchal, dividindo para este effeito a cidade de Lisboa, e seu arcebispado em duas metropeles, com territorios distinctos, ficando os que pertencem à linha devisoria da parte do nascente sujeitos ao prelado de Lisboa Oriental, e os que olhavam para o poente ao patriarcha de Lisboa Occidental..."]

Mappas das provincias de Portugal novamente abertos e estampados em Lisboa, João Silvério Carpinetti, 1769.
Biblioteca Nacional de Portugal

e accrescentaram que "in dirbus illis" a cidade era toda para além do Tejo; mas que, com o decorrer dos annos, se descobriu ser mais commodo habitar da parte de cá, de sorte que a pouco e pouco se fez esta grande Lisboa, que antes de destruida pelo terremoto devia ser uma cousa estupenda, e a antiga Lisboa do lado de lá a pouco e pouco se reduziu a quasi nada.

Este "quasi" quiz eu ver logo; por isso esta manhã aluguei ás horas um bote de dois remos, e em menos de uma hora lá me achei. Ambas as margens deste rio são, pela maior parte, altas e penhascosas, mas a oriental ou esquerda especialmente, é toda ella uma collina mais alta que a nossa dos Capuchinos [colina próximo de Turim, assim chamada por causa de um convento de frades d'aquella ordem, que tem no cimo]; e a subida é tão difficil e aspera que faz suar a medulla dos ossos, quando o sol queima, como fez todo o dia de hoje.

Almada, brasão de armas no anno de 1760.

Mas, meus irmãos, bem sabeis que a curiosidade me faria andar descalço sobre espinhos, quanto mais ao sol. O certo é que, desta vez, a curiosidade teve pouco pasto, porque aquella Lisboasinha não contem senão dois logaritos de nenhuma importancia, um chamado Almada, outro Cacilhas [no texto vem "Castiglio"].

Em Cacilhas nada vi de notavel, a não serem os pouquissimos restos de um pequeno forte situado sobre urna eminencia bastante alta, e que de certo, não custou muito ao terremoto demolir.

Em Almada visitei um pequeno convento de dominicos, chamado de S. Pauto, cujas paredes interiores são forradas de azulejos muito luzentes, que só de os ver refrescam a gente. Este convento já não tem egreja, porque abateu de uma vez com o terremoto, ficando esmagado um frade que estava celebrando missa, e bem assim todas as pessoas que se achavam na egreja, sem escapar uma só.

E o padre que me acompanhava nesta visita disse me que debaixo das ruias foram depois tirados os cadaveres de mais de cincoenta mulheres, todos aos pedaços, sem contar os homens, que não chegavam a vinte, cousa digna de todo o credito. porque em toda a parte os homens são muito menos inclinados ã devoção, e cuidam muito menos da salvação da sua alma do que as mulheres. 

Nós, os homens, podemos dizer o que quizermos; mas, por bondade de animo e por virtude, reunidas, as mulheres approximam-se tanto do caracter dos anjos, quanto os homens se avisinham ao de certos senhores de pontas, de garras e de cauda, que por delicadeza, não quero aqui nomear.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII (detalhe).
Museu de Lisboa

Não é porque eu ignore que no mundo existem mulheres de caracter iniquissimo, as quaes por soberba, avareza ou luxuria poriam fogo por assim dizer a um sanctuario, e muitas hei conhecido que, para enganarem o proximo, ainda que sem grande proveito proprio, teriam deitado a barra adeante d'aquelle que entrou na serpente para enganar a mãe de genero humano; mas, pelo amor de Deus não me obrigueis, meus senhores, a entrar a dizer a verdade, e a pôr a calva á mostra aos homens, pois que, por um bom ou mediocre que me deis, eu vos apresentarei logo dez mulheres.

E notae que, por uma que corrompa a mente de um homem, cem mulheres são corrompidas por um só destes traidores, o qual, tingindo atfficção e desesperação mortal por amor invencivel, faz emfim tanto com o auxilio do diabo, que desperta immensa piedade no coração credulo e compassivo de uma innocente e digna creatura feminina, e d'ella se torna senhor absoluto primeiro que a misera e mesquinha caia em si de ter sido vencida pela sua natural bondade e ternura mais que pelo seu appetite e concupiscencia.

Por isso, minhas senhoras, podeis estar certas, e recordae-vos sempre de que o maior inimigo que tendes é a vossa mesma bondade, que vos faz obrar a maior parte dos despropositos que fazeis, os quaes despropositos, para vosso maior pesar, e para vossa maior vergonha, são quasi sempre praticados a favor de um ingratíssimo patife, que, quando de vós houve o que desejava, vos despreza, vitupera e aborrece, ou vos trata deshumana e cruelmente, apenas vos entregastes a elle sem nenhuma reserva.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII.
Museu de Lisboa

— Mas, volte-mos a Lisboa oriental. O desmoronamento da egreja de Almada tornou aquelle logar pobrissimo de habitantes. O convento não fez companhia á egreja, pois ficou de pé, de maneira que nenhum dos frades morreu, excepto o que referi, e um leigo.

Das janellas desse pequeno convento se desfructam as mais bellas vistas do mundo, porque de uma parte se avista toda Lisboa, e Belem, o rio, o mar, infinitas embarcações, differentes castellos e fortalezas, que defendem a foz do Tejo, e da outra lindissimas collinas verdejantes e bem cultivadas; por maneira que este, quanto a mim. e um panorama muito superior ao famoso promontorioo, em que já vos fallei, o monte Edgecumbe, perto de Plymouth, em Inglaterra.

Satisfeita a minha curiosidade pelo que respeita a Lisboa oriental, desci a collina, voltei ao bote, e mandei aproar ao hospital dos inglezes, que tira do mesmo lado do rio, para baixo, para a banda do mar; mas não vi lá cousa nenhuma que parecesse extraordinario, excepto um medico já velho do hospital, um urso, que, tendo recebido aos setenta annos uma rapariga de dezoito, tornou-se, apesar de inglez, tão bestialmente ciumento, que se poz a olhar muito para mim de soslaio, quando viu que me dirigia para o jardim do hospital, porque sua mulher alli estava n'aquelle momento colhendo figos e uvas para o jantar.

Vista de Lisboa (tomada da margem sul), Alexandre-Jean Noël.
Cabral Moncada Leilões

Contudo, mesmo nas suas bochechas, fui entrando, sem lazer reparo na sua mulhersinha, porque não tenho prazer nenhum em causar aborrecimento a outra pessoa; e antes tenho dó dos velhos, que estão no caso d'aquelle senhor doutor, reflectindo que talvez haveria mister da compaixão dos outros n'aquella edade, se lá chegar, e se então perder o juizo, como succedeu ao pobre homem.

Não creio que a ternura do coração e o amor ao sexo feminino se apartem jámais dos homens educados, se Deus os não ajudar com uma graça especial, e lhes não apagar da fantasia a esperança do supremo contentamento que é produzida pela idéa incessante da posse completa da belleza feminil.

E é por isso que os homens de educação devem, especialmente quando são solteiros ou viuvos, arreceiar-se sempre de cair na rede em que o referido doutor cahiu; porque um quarto de hora de violenta agitação do pensamento é muitas vezes bastante para vencer toda a prudencia humana e todas as resoluções mais fortes de um homem considerado circumspecto, e leva-o a praticar um erro grande que precisa de ser sustentado depois com outros muitos erros; e talvez fosse este exactamente o caso do meu pobre velho doutor do hospital inglez donde voltei, rio acima, para casa de um irlandez que negoceia em vinhos por grosso, esperando induzil-o, com dinheiro ou com boas palavras, a dar-me algum por miudo, tendo com effeito tanta necessidade d'elle como os meus catraeiros.

E foi uma felicidade que aquele senhor negociante de vinhos que se chama O'Neal, usasse para commigo de tanta cortezia quanta vilania tinha praticado o velho doutor da tal mulher nova, o qual apenas quiz consentir que eu depenicasse um cacho das suas vinhas, que todavia estavam carregadíssimas d'elles.

Retrato de Giuseppe Baretti (1719-1789) por Joshua Reynolds.
Wikipedia

Deu-me com liberalidade o sr. O'Neal a beber quanto eu quiz, e fez-me provar mais qualidades de vinhos muito estimados, e aos meus suados barqueiros deu tambem um garrafão, pondo ainda dificuldade em deixar metter algum dinheiro no bolso de um seu pequeno.

Aquelle cavalheiro tem a sua casa protegida do rio por uma espécie de molhe construido de grossos penedos, e, tendo eu subido a esse molhe, recreei-me de ver dois escravos da Guiné, mais pretos do que pez nadarem no rio, e darem viravoltas e saltos na agua, e mergulhos, que era um regalo vel-os; e, a troco de alguns cobres que lhes dei, armaram uma dança sobre as ondas, cantando á sua moda, ora mergulhando, ora pulando de todo no ar. de modo tão assombroso, que seria mais facil agarrar uma enguia pelo rabo. 

Da canção do baile, que me cantaram em lingoa africana só comprehendi que era uma rima, nem mais nem menos do que a de Lourenço de Medicis e do Policiano.

Alguns modernos inimigos da rima teem dito e continuam a dizer que essa futilidade foi inventada pelos frades nos seculos barbaros, e em apoio da sua opinião citam os versos leoninos; mas eu achei que os americanos do Mexico e de outras partes do novo mundo usavam das rimas antes do nascimento de Christovam Colombo, e é claro que faziam uso d'ellas por serem proprias da poesia, fosse esta o que fosse, boa ou má.

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
FRESS

E pela mesma razão os mouros da Guiné, e provavelmente de toda a Africa. empregam a rima em todas as suas poesias, sem haverem tido por mestres os inventores do verso leonino. Custa-me bastante não saber musica para apanhar as poucas e solemnes notas d'aquella canção africana; e quando figuei satisfeito, voltei a prôa para Belem, e fui visitar o convento dos Jeronvmos. (1)

Lisboa, 5 de setembro de 1760

Cartas Familiares de José [Giuseppe] Baretti, traduzidas do italiano [por Alberto Telles], VII


(1) Occidente n.° 625, 5 de maio de 1896.

Artigos relacionados:
Mappa de Portugal antigo e moderno
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura relacionada:
Francisco de Almeida Mascarenhas, Codex titulorum S. patriarchalis ecclesiae Lisbonensis... 1746
Pe. João Baptista de Castro, Mappa de Portugal antigo e moderno, Lisboa, Off. de Francisco Luiz Ameno, 1762-1763

Informação relacionada:
Lugares de Almada: Da Fonte da Pipa à Arialva, passando pelo Olho de Boi

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Barca Isabel

Impedidos por negocios de momento, não podemos corresponder ao obsequioso convite do Sr. José Antonio Pereira Serzedello, distincto e mui estimado negociante desta praça, proprietario da barca Isabel, que da praia de Porto-Brandão, onde acabava de ser construido, devia correr para as aguas do Téjo no Domingo passado, 8 deste mez.

Barca Isabel, 1851.
"Janêllos" da História: Os Serzedello

Não presenceámos, portanto, o luzido espectaculo, a numerosa concorrencia, que appresentou nesse dia aquella parte da margem do sul do rio , e de que fizeram individuada relação alguns jornaes da capital, como a Lei e a Nação.

Constou-nos que não faltára coisa alguma ao esplendido da funcção, realçada pela afabilidade do proprietario do navio, que fez servir uma copiosa e variada collação aos seus amigos e convidados , não obstante o desgosto causado pela suspensão da barca na carreira, contra toda a expectativa.

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Museu de Lisboa

Oxalá que fosse este o unico dissabor! Porém, somos informados de que no dia immediato, tentando-se dar impulso ao navio por meio da força braçal, rebentou o aparelho, ficando tão maltratados quatro homens, que ainda se acham em perigo de vida.

Porto Brandão, à esquerda do Tejo.
Ateneu Livros

O Sr. Serzedello sentiu-se tão commovido, que perdeu os sentidos, mas, tanto elle, como pessoas de sua familia, desveladamente se empenharam em prestar os auxilios ao seu alcance neste desastroso successo.

Barca [Brigue] Viajante (João Pedroso, atrib.).
Invaluable

Por conta do Sr. Serzedello se está construindo, no mesmo local de Porto-Brandão, um brigue, que será denominado Viajante. (1)


(1) Revista Universal Lisbonense, 12 de setembro de 1850

Artigos relacionados:
A casa da Quinta da Oliveira
Serzedello & Ca., Laboratorio Chimico na Margueira
O laboratório químico da Margueira
Indústria química

Mais informação:
"Janêllos" da História: Os Serzedello

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O casamento de Elvira e Bordallo

Apesar das determinações paternas, Raphael Bordallo continuou sempre desenhando tudo que lhe apparecia: e em 1857, pequenote ainda, estando em Cacilhas, fugido da febre amarella com sua familia, pintou um quadrito a oleo, que existe hoje no Alemtejo, em casa de uma tia sua, cópia — o quadro, não é a tia — de uma lithographia representando uma família de camponezes á espera de um filho ausente, todos sentados á beira-mar; composição em que se notou desde logo sentimento e gosto... (1)

Regata dos barcos da Channel Fleet em Lisboa, 1869.
amazon

Conhece-se o amor no muito que se sacrifica; é talvez uma das differenças mais intimas que ha entre elle e a amizade: a amizade faz sacrificio de muitas cousas, o amor sacrifica-se muito a si. Por isso na hora em que Raphael Bordallo se apaixonou pela senhora [Elvira Ferreira e Almeida] com quem veio a casar [no dia 15 de setembro de 1866], cortou logo por todo o genero de prazeres e de divertimentos que lhe tornavam a vida agradavel, e foi viver uns poucos de mezes na Outra-banda, onde essa menina estava a banhos.

Viria como um assassino, como um malfeitor, como um homem muito facinoroso, sempre escondido, sempre disfarçado, por causa da mãe da menina, que costumara reprehendel-a asperamente quando o avistava. O primeiro amor ó muilo cantado, mas não lhe fazem n'isso favor nenhum, porque realmente o merece; basta ser o unico tão isento de amor proprio quanto o amor póde chegar a sel-o! 

Raphael Bordallo Pinheiro, 1876.
Museu Bordalo Pinheiro

No fim de um anno d'aquella vida quasi melodramatica, pela fórma, resolveu casar-se, casar-se ou morrer. 

Pede-se a noiva; mas ha recusa; elle tira-a aos patrios poderes por meio de justiça; o casamento faz-se em 13 dias; a noiva, menina. gentilissima, é depositada em Cacilhas; o casamento tem logar em Almada. Se quasi toda a gente se casa moça, muito moça, é provavelmente por ser essa a idade da audacia, da coragem, estavam com medo que eu dissesse, das loucuras? nunca! 

Elvira Ferreira de Almeida.
Museu Bordalo Pinheiro

No dia do seu casamento fazia uma ventania que ia tudo pelos ares. Elle passeava no caes de Cacilhas, vestido como é proprio nas grandes occasiões, casaca, gravata branca, esperando pessoas de amisade que deviam ir de Lisboa...

O tempo a passar, o vento cada vez mais rijo, e elle passeando, passeando...

Antes que cases, olha o que fazes.
Raphael Bordallo Pinheiro, Album de caricaturas

Já se dizia que não queria casar. Perguntava-se por elle a quem se encontrava:
 
Que é do homem?
Qual homem?!
O noivo?
— O Bordallo?
Ainda não veiu?   
Não. Vossê viu-o?
— E vossê?
Quem o viu?
É celebre!...

Veiu o padrinho por alli abaixo procural-o, e queria que elle fosse n'um burro para chegar mais depressa:

— Monte no burro, avie-se!
— Não vou, não vou; no burro, não vou! retorquiu Raphael com dignidade.
— Estamos ha que tempos na egreja á sua espera!
— Pois agora vamos; mas vamos a pé; é só mais um instante...

O janota de chapeu alto, Raphael Bordallo Pinheiro.
Bordallo Pinheiro

Escapou do burro, mas não poude fugir ao chapeu de chuva, e marchou para Almada, "en grand tenue", de guarda-chuva aberto. 

Chega emfim a S. Thiago de Almada, tranquillisa pela sua presença os animos agitados dos circumstantes, fecha o chapeu de chuva; momentos depois, tudo está dito: casou. 

Roque Gameiro.org

Aquelle acontecimento tinha para elle todas as seducções da liberdade, tinha até certo encanto phantastico; realisar o seu ideal, alcançar a escolhida do seu coração, tudo isso longe de Lisboa e podendo dizer ao padrinho como nos melodramas;

Diante de nós o mar, ao nosso lado o mar, em redor de nós o mar! 

Porque Raphael Bordallo é uma imaginação para tirar partido de tudo, não brincando como se poderá julgar, mas a serio, extremamente a serio, com todo e, enthusiasmo de um temperamento em que as tristezas, as alegrias, e as exaltações são sempre subtis, imprevistas, ardentes, febris. 

Lisboa vista de Almada, J. Laurent (1816-1886), c. 1870.
Archivo Ruiz Vernacci


Diziam-lhe á volta para Cacilhas:

O mar está horrivel! Isto vai ser agora um pouco desagradavel!...
Qual desagradavel! É uma viajata. É tempo de que os portuguezcs comecem a ter estimação pelo movimento, pela novidade, pelo sair da toca!
Pois sim, mas póde a gente sair da toca n'um dia ameno. 
Nada; não senhor. Isso é desconhecer o gosto pelas viagens. As viagens exigem, para serem em termos habeis, commoções, surprezas, perigos. Entre nós ainda nem se percebe isto correntemente porque ha horror a separar-se um homem do Chiado, ou do Rocio. Os portuguezes, ainda teem medo de sair da sua rua. E querem dizer que já isto vae melhor. D'antes acham-se de alguma vez um ou outro, por casos políticos, na França ou na Inglaterra, emigrado. Agora nem isso! E não ê senão pela teima de se deleitarcm em viver quietos, contentando-se com o seu bairro [...]

O vento soprava rijo...

Rafael Bordalo Pinheiro e familia em 1879.
Museu Bordalo Pinheiro (Flickr)

Como elle assovia! diziam os circumstantes segurando os chapeus.
Deixe assoviar. É o modo d'elle de celebrar meus louvores!

Havia uma tempestade.
Os noivos deviam partir para Belem, onde ficariam residindo.
O mar estava medonho.

Retrato de Elvira Bordalo Pinheiro, Columbano, 1883.
MNAC

Ninguem se atrevia a embarcar; quando se consultava os barqueiros, os honestos homens respondiam torcendo o barrete:

Está picadito, o mar está picadito!
—  E se formos a remos?
Vamos metter muita agua!
O melhor é esperar pelo vapor.
O vapor virá só de tarde, e não atraca, provavelmente.
Vamos embora!

Não houve remedio.
Embarcaram [...]

—  Não está mau torrão! dizia o padrinho, embrulhando-se no toldo, em quanto a noiva ria, ria [...]

Ih! Cuidado! O bote vai a metter a quilha na agua...
Não ha novidade! dizia o homem do leme.
Então posso continuar? perguntava Raphael ao padrinho.
Tomára-me eu em terra!

E o noivo, olhando para a noiva, e meigamente:

Tambem eu! 

Zé Povinho e Maria Paciência.
Museu Bordalo Pinheiro (Flickr)

Depois, n'outro tom para o padrinho: 

—  Mas, como eu dizia, deixemo-nos de historias, nada d'isso é tão digno de estimação como passar as aguas, separar-se da cidade, da Lisboa querida, nossa patria e nosso enlevo, e ir de viagem casar a Almada! É ou não é? (2)


(1) Raphael Bordallo Pinheiro, Album de caricaturas, Lisboa, 1876, cf. prefácio de Julio Cezar Machado
(2) Idem

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Egreja de S. Thiago em Almada
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O amor italiano de Bordalo Pinheiro
Bordalo na Gare Rodoviária do Oeste
Museu Rafael Bordalo Pinheiro (Flickr)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

O Theatro d'Almada

Em 16 de Julho de 1849, o famoso Actor Isidoro, Isidoro Sabino Ferreira de sua graça completa (1828-1876), estreou-se neste palco como artista profissional. Mais tarde, em 1868, este comediante, de sociedade com o popularissimo actor Taborda (1824-1909) assinaram a escritura para a compra do referido teatro,que restauraram e exploraram por uns tempos.

Entrada do pátio do Prior do Crato em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

A título de curiosidade se transcreve parte da escritura notarial:

"...Cenifico que em 19 de Agosto de 1868 se verificou a apresentação n.° 5 no diário de três escrituras com data de 14 do presente mês celebradas a 1.a a folhas 97 a 2.a a folhas 99 e a 3.a a folhas 99 verso do livro 325 das Notas do Tabelião de Lisboa João Baptista Pereira, sendo apresentante Isidoro Sabino Ferreira, casado, actor dramático, morador na Rua das Escolas Gerais, n.° 9, freguesia de S. Vicente, Bairro de Alfama. 

Isidoro Sabino Ferreira por Joaquim Pedro de Souza, 1859.
FBAUL

E por virtude destes títulos se inscreve em seu nome e no seu com-possuidor Francisco Alves da Silva Taborda, também actor dramático, casado, morador na Rua dos Calafates n.° 76, freguesia da Encarnação, Bairro Alto, o domínio pleno sobre o prédio n.° 278 descritos a linhas 143 verso do livro terceiro."

Actor Taborda, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Para localização do dito teatro nos dias de hoje se transcreve outra e elucidativa passagem da mencionada escritura:

"Prédio urbano (teatro) que consta de sala de espectadores com seu pátio e duas galerias, sotão e corpos contiguos de loja e primeiro andar, dependências do mesmo edifício, tendo na sala de espectáculos uma janela, outra no salão do teatro, outra no 1.° andar da casa contígua do lado do Pátio do Prior e  mais duas janelas para o lado da Rua da Boca do Vento.

É situado na freguesia de São Tiago de Almada, e tem os números de policia quatro a sete para o lado do dito Pátio do Prior e números um e dois para a referida Rua da Boca de Vento.

Confronta pelo norte com o prédio de António José Alves de Bastos e com o Pátio do Prior, pelo lado sul com prédio de António Ferreirade Pinho e Rua da Boca de Vento, pelo nascente pelo dito António Ferreirade Pinho e com o dito Pátio, e pelo poente com Domingos Caetano Rodrigues. 

Calçada da Barroquinha, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Calcula-se o valor venal deste prédio com duzentos e oitenta mil réis e o seu rendimento líquido (...) em trinta mil réis. 

Esta descrição foi feita à vista de três escrituras públicas, datadas de 14 do presente mês lavradas, a 1.a a folhas 97, a 2.a e a 3.a a folhas 99 verso do livro 325 das Notas do Público da Cidade de Lisboa João Baptista Pereira e da declaração suplementar assinada por Isidoro Sabino Ferreira e apresentada pelo mesmo nesta Conservatória sob o número 5 do diário em dia 19 de Agosto de 1868. As escrituras foramentregues ao apresentante e a declaração ficou retirada num maço n.° 3 do corrente ano. Fica o prédio lançado no índice supra."

Perspetiva da rua da Judiaria em Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Também a título de curíosídade se transcrevem duas passagens das Memórias do Actor Isidoro, rublicadas em 1878, em que faz referência ao celebrado Teatro de Almada:

"Caprichos da natureza!... Aínda não há dois anos, estava eu tão gordo!... Tinha uma apparencia a tal ponto clerical, que dei motivo ao seguinte caso:

Trazendo obras no theatro d'Almada, fui d'aqui (de Lisboa) n'um domingo de manhã levar a féria aos operários. 

Chegado a Cacilhas,montei n'um jumento, e elle ahi marcha para Almada vergando com o meu peso!

Ao fim da calçada, apenas dobro o cotovello, d'onde se descobre a porta da egreja da Misericordia, vejo um immenso grupo de gente, que apenas me avista, se põe em movimento entrando atropeladamente para a egreja!... O sino toca apressado, dando o signal de ultima vez!...

Aproximo-me, e oiço uma estrepitosa gargalhada solta pelas pessoas que ainda estavam na rua, por não terem achado logar na egreja!... 

Perspectiva da rua Direita de Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Era eu o motor de tal gargalhada... porque vendo-me tão gordo, de chapéo de sol debaixo do braço e o chapéo da cabeça inclinado para traz, segundo o meu uso ordinario, marchando a cavallo tão pachorrentamente, como eu dizia n'um couplet da Loteria do Diabo:

E n'aquelle passo lento
Em que tanto me fiava,
Era ás costas do jumento
Que melhor eu ressonava... 


Por todas estas apparencias tinham-me tomado pelo padre que se esperava para a missa, e aqui está
o motivo de todo o movimento operado á minha apparição!..." (págs. 69 e 70 da citada obra.) 

Outra passagem:

"O melhor expediente que a sociedade achou foi, dar de prompto um espectaculo no theatro d'Almada, em seu benefício, composto de peças que já tinham sido dadas no seu theatro particular.

Fez a direcção os maiores sacrificios para arranjar os meios indispensáveis para preparar a partida da sociedade para o theatro d'Almada. 

Realisou-se o projectado beneficio em 16 de Julho de 1848, com a comedia em tres actos, O Rachador escocez. e a comedia em um acto, A Sociedade dos 3, sendo os papeis de primeira dama desempenhados por um dos directores da sociedade o sr. José Maria da Cruz Moreira, vulgo, José Maria Alfaiate, que apesar da differença do sexo, e da falta de formosura indispensavel nas damas amorosas, no mais preenchia perfeitamente o seu lugar!...

Fazia os primeiros papeis de baixo comico, o sr. José Maria Rodrigues, conhecido nos theatros particulares d'aquella época por José Maria Carpinteiro, era tal o seu merecimento no alludido genero, que por mais de uma vez foi chamado a represenlar em theatros publicos... mas o seu acanhamento ou excessiva modestia, o deixaram ficar até hoje, amarrado ao banco...de carpinteiro!

Eu representei n'esta recita o papel de galan sério... e lá me escapei como pude...

Do resto a sociedade não houve nada de maior a notar.

Acabada a representação, foi-se a contas, e verificou-se que a receita mal tinha chegado para as luzes!... 

Novos embaraços para a direcção!... 

N'estas occasiões, nunca faltam amigos officiosos dando os seus pareceres sobre os acontecimentos da noite!... Os d'esta vez disseram que a falta de concorrencia, era devida ao estar o espectaculo mal annunciado... portanto que annunciassemos melhor para o dia seguinte, e teriamos uma enchente!...

A promessa era tentadora, vista as precarias circumstancias da sociedade!... 

Depois de seria conferencia da sociedade, decidiu-se dar a segunda recita no dia seguinte, e para evitar a falta de que fomos accusados, mandou-se vestir com fatos apropriados, dois rapazes que tinham ido para tocar clarim na peça, e montados em jumentos correr as ruas d'Almada tocando clarim em ar de bando!... 

Chegou a noite, e nem um camarote alugado!... 

A direcção na esperança ainda de avisar o anuncio que o bando tinha feito de dia, mandou tocar os clarins á porta do theatro... e... nada!... Tornou a mandar tocar... e... nada!...  Mandou ainda tocar, e ainda nada!

Entrada do pátio do Prior do Crato em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Finalmente, apparece meia dusia de pessoas, que nos explicam, que a falta de espectadores que ainda n'aquella noite se notava, era devida a ter-se espalhado pela villa, quando se ouviu toques de clarim, que tinha chegado uma força a Almada, e que estava tocando a unir, para depois fazer a distribuição dos aboletados [soldados aquartelados em casas particulares] por toda a povoação!... tratou toda a gente de se fechar em casa, em vez de sair para o theatro! Imagine-se que novos embaraços, este ultimo revez acarretou sobre a pobre sociedade!...

Voltei ainda a represenlar, n'este anno de 1848, e no seguinte, sempre em beneficio d'outros, e sem mais responsabilidade, a não ser o desempenho dos meus papeis... mas sem que se desse caso algum digno de menção.

Finalmente tornei ali em 13 d'outubro de 1849, a representar A vingança, drama em cinco actos, e Os politicos do seculo XIX, comedia em um acto, originaes do sr. Adjuto Manuel da Conceição dos Reis, homem de talento, grave e sisudo, que andaria a este tempo, pelos seus quarenta e cinco annos, digno, em tudo de respeito e admiração, mas que tinha a fraquesa de querer representar os papeis de primeira dama, em todas as sociedades particulares, que organisou, sustentou e ensaiou por espaço de muitos annos! 

N'esta noite, representou no drama o papel de Margarida de Santi, um papel entre tragico e o ultra-romantico... e apesar de um sem numero de circumstancias que tinha contra si, fez-se agradar n'esta noite do publico pagante d'Almada!" (págs. 142, 143, 144 e 145 da citada obra) (1)

Isidoro Sabino Ferreira (1828-1876).
HathiTrust

Realisa-se, no dia 15 do corrente [fevereiro de 1879], no theatro de Almada, uma recita extraordinaria, em beneficio,como espectáculo seguinte: o drama em 3 actos "Scenas do Brazil", As comedias: "Um noticiarista" e o "Criado politko", a poesia: "Um artística invalido," e umas cena cómica. 

Tomam parte, por obsequio o sr. Liberato da Silva e os distinctos amadores da sociedade União Dramatica. No salão do theatro toca, também por obsequio, a philarmonica União d'Artistas Cacilhense. 

O espectáculo não pôde ser mais attrahente. (2)


(1) Romeu Correia, Um pátio de comédias em Almada, Movimento Cultural, ano II n.° 3, 1986
(2) Diário Illustrado, sabbado 15 de fevereiro de 1879

Leitura relacionada:
Memorias do actor Izidoro [i.e. Isidoro Sabino Ferreira] / ... Ferreira, Isidoro Sabino, 1828-1876.

Mais informação:
As Bandas de Música no distrito de Lisboa entre a Regeneração e a República (1850-1910)



Este Pátio do Prior, à Boca de Vento, tem uma história de primeiro plano na memória de Almada. Chamava-se assim por as suas casas terem pertencido a D. António. Prior do Crato, que as herdara de seu pai, D.Luís, duque de Beja e irmão do rei D. João III. Este fidalgo fora donatário de Almada e, segundo a tradição, ordenara a sua construção. Após o desastre de 1580, a perda da nossa independência e o exílio de D. Amónio, as casas passaram para a posse dos Abranches, que, em vésperas da revolução de 1640, aí conspiraram e receberam o duque de Bragança, futuro D. João IV.

ASPECTO DA ENTRADA DO PÁTIO PRIOR DO CRATO NO LUGAR DA BOCA DO VENTO - ALMADA
AMRS

No fim da primeira metade do século XIX teve aqui lugar o Teatro de Almada, muito frequentado, na época estival, pelos veraneantes que ocorriam às praias desta margem. Utilizando a sala de espeçtáculos, a Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, fundada em 1 de Outubrode 1848, teve neste teatro a sua primeira sede.

cf. Romeu Correia, Movimento Cultural, ano II n.° 3, Dezembro 1986