quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Ao juiz de fora em Almada, José Barbosa de Carvalho

Ao procedermos a uma busca no arquivo dos recolhimentos da Capital, instalado no recolhimento da Rua da Rosa, encontrámos lá vários documentos que pertenceram ao Dr. José Barbosa de Carvalho, que foi, primeiramente, juiz de fora em Almada, desde 18 de Agosto de 1755 (data do decreto do nomeação), até 24 do Janeiro do 1760 [...]

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII.
Museu da Cidade de Lisboa

Prisão de malfeitores por ocasiao do terremoto de 1755

Num ofício, datado de 4 de ,Novembro de 1755 e assinado por Sebastião José de Carvalho o Melo, recomendou-se ao juiz de fora de Almada que examinasse todos quantos passassem pelas terras da sua jurisdição e lançasse mão de todos os viandantes que se não legitimassem.

Marquês de Pombal, Louis-Michel van Loo e Claude-Joseph Vernet, 1767.
Imagem: Oeiras com História

A necessidade desta diligencia vem explicada no começo do oficio nestes termos: 

"Na cidade de Lisboa se espalhou  hum grande numero de ladroens tão deshumanos, e sacrilegos que abusando da calamidade coco que Deos Senhor Nosso nos avisou no dia Primeiro do corrente, acrescentaram a consternação do Povo justamente espavorido persuadindo-o a que se retirasse para longe porque se mandava bombear a cidade, para no abandono em que a puzeram com estas vagas vozes cometterem a seo salvo os muitos, roubos, e sacrillegios, com que despojaram as casas, e os Templos: passando pra essas partes carregados dos mesmos roubos e sacrillegios".

Mantimentos para os povos da Outra-banda e regulamentaçno dos preços das embareaçoes, por ocasião do terremoto

Num oficio datado de 7 do Novómbro do 1755, comunica Sebastião José de Carvalho o Melo (que o assina), ao juiz do fora de Almada, que S. M. tendo ficado muito sensibilizado com a notícia dos estragos causados polo terremoto naquela vila, mandava dizer, polo que respeitava a mantimentos, que êle podia fazer publicar não só na vila, como em todo o sou termo, que, desde o Terreiro do Paço até a Ribeira, se achava estabelecida uma feira abundantíssima do tudo o que era necessário. 

Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Neste documento diz-se que com êle seguia um edital relativo aos barqueiros por ter sido S. M. informado que êles tinham vexado os povos com exorbitâncias, e impedido o comércio humano.
Barcos caellheiros para transporte da Familia Rial, e dos coches, para a Outra-banda

Cada vez que a Família Rial tinha do atravessar o Tejo, o que sucedia freqhentemente, era pelo poderoso ministro do El-Rei D. José expedido um ofício ao juiz de fora de Almada em que lhe ordenava que a certa hora tivesse prontos em determinados sítios da margem direita uns tantos barcos cacilheiros para conduzirem para a margem oposta não só as pessoas riais, como os coches, a acharia, criados, etc., os quais deveriam ser entregues ao Sargento-mor Pedro Teixeira, o conhecido amigo e criado do Soberano, a quem ora sempre cometido o encargo de dirigir os carregamentos.

Acerca do sitio em que se fazia o embarque encontram-se nos oficios as seguintes indicações:

no de 23 de Janeiro de 1756: 17 barcos, no dia seguinte, na "praia da Junqueira";
no do 15 de Maio do 1756: na "praia da Junqueira";

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 6/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Biblioteca Nacional de Portugal

no do 29 do Novembro de 1756: 14 barcos no sítio do "Cais do Carvão, junto às Gallés" [conf. Visconde de Castilho: A Ribeira de Lisboa, p. 181. No mesmo livro, a p. 116, diz-se que "O Caes do Carvão, com seu armazem para deposito dessa negra mercancia, era entre dos feio e lugubre". Não se compreende, por isso, como a Familia Rial lá ia embarcar, como se depreendo não só deste ofício, como dum outro adiante citado], de sorte que lá estivessom o mais tardar até a meia-noite do próprio dia à ordem do Pedro Teixeira;

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 8/9),  Bernardo de Caula, 1763.
 Biblioteca Nacional de Portugal

no de 2 do Dezembro do 1756: 12 barcos cacilheiros, na "praia da Junqueira, onde se costumam embarcar as equipagens de S. M.";
no do 8 de Janeiro do 1757: 28 barcos para servido da repartição das riais cavalariças, na "praia da Junqueira";
no do 17 de Novembro do 1757: 11 barcos cacilheiros para a "ponte da Junqueira";
no do 10 do Dezembro do 1757: mandam-se vir barracas do Porto Brandão para a "ponte da Junqueira"; no do 30 do Dezembro do 1757: ordenou Sebastião José de Carvalho ao juiz do Almada que no Domingo, 1.° de Janeiro. de 1758, enviasse 28 barcos cacilheiros para a praia do Forte.da Junqueira, onde deverão estar ao meio-dia. No dia 15 tornaria o mesmo juiz a mandar igual número do barcos ao mesmo sitio, à ordem de Pedro Teixeira;
no de 12 do Dezembro do 1758: 16 barcos cacilheiros, que .deveriam vir sem falta na noite do mesmo dia "portar no Cais do Carvão, junto à fundiçao, onde ordinariantente costumão vir em semelhantes ocasiaens".

Diligência Importante, cometida ao Juiz de fora de Almada (Relacionada com a prisão do Duque de Aveiro) 

"S. Mag.de. he servido, que v. m. na mesma hora, em que receber este Aviso, sem a menor interrupção do tempo passe dessa Vila de Almada ao Porto de Cassilhas com toda a diligencia; e que nelle suspenda v. m. o dezembarque de todas, e quaesquer Pessoas, que ali portarem, de qualquer estado, condição, e qualidade, que sejão, sem excepção algūa; não lhes permittindo de alguma sorte, que possão sahir das embarcação, em que chegarem, desde as seis horas da madrugada athé as quatro da tarde do dia de amanham: E tendo v. m. entendido, que ao tempo, em que permittir os dezembarques, por ser chegada a referida hora; deve dar geral busca á todas as referidas Pessoas; e deve sequestrarlhes, e remetter logo segueos á esta secretaria de Estado todos os Papeis, o cartas, que forem sachados; os quais serão restituidos pela māo de v. m. ás Pessoas, áquem se apprehenderem, depois de se haver nelles feito hua diligencia muito importante para o serviço de deos, e de S. Mag.de"


"Desta forma morreram justiçados...", retrato simbólico do acto da execução dos Távoras.
Biblioteca Nacional de Portugal

"O mesmo Senhor ordena outrosim, que no cato, em que não só no espaço do tempo acima referido, mas ainda depois delle, por todo o sobredito dia, e noite, e pelo dia proximo seguinte, chegue ao caes do mesmo Porto qualquer embarcação, que não seja a publica, o da carreira ordinaria; a qual leve algum passageiro particular; v. m. faça logo apprehensão nello immediatamente, e nos Papeis, e Cartas, que lhe forem achados; mandando-os v. m. acargo de Pessoas seguras entregar na minha mão, ao tempo, em que os for descobrindo sem dilação algūa, para serem logo prezentes á S. Mag.de que ha por muito recomendado á v. m. tudo o referido, debaixo da certeza de que qualquer inesperada omissão, que houvesse aos ditos respeitos poderia ser de grande desserviço das duas Magestades, Divina, e humana. 
Deos guarde a v. m. 

Bellem a 12 de Dezembro do 1758
S.or Juiz de Fora do Almada. 

Thomé Joachim do Costa Corte R.l"

À margem tem mais o seguinte:

"P. S. A ordem retro não comprehende o Ministro, ou Ministros, ou officiaes de guerra, que poderão passar o Rio encarregados de algumas diligencias do Real serviço: Aos quais sómente ordena S. M. que v. m. deixe livremente dezembarcar com os officiaes do justiça, e soldados, que os acompanharem". 

Na mesma data foi dirigido um Aviso aos oficiais de justiça, da guerra, auxiliares e ordenanças para que dessem no juiz do fora de Almada todos os auxílios e socorros que ele lhes declarasse serem-lho necessários para a execução do certas diligências do serviço de Deus e de S. Majestade, e de que se achava pelo dito senhor encarregado no porto de Cacilhas e suas vizinhanças. (Êste documento tem um sêlo do lacre com as armas riais).


Villa Nogueira (Azeitão), Antigo Palácio dos Duques de Aveiro.
Fundação Portimagem

Tendo sido no dia 13 de Dezembro do 1758, do madrugada, que se efectuou a prisão do Duque de Aveiro, em Azeitão, nenhuma dúvida pode haver acerca do fim desta diligencia no pôrto do Cacilhas, ordenada no dia 12 do mesmo mês: Sebastião José do Carvalho, querendo impedir que o Duque lho escapasse das mãos, quando estava prestes a segurá-lo, cercou-o cuidadosamente. 

Junqueira, Maio de 1919. 
Arthur Lamas. (1)



(1) O Archeologo Portuguez

domingo, 5 de julho de 2020

Café Progresso, Largo do Costa Pinto

Quadro n.° 65. (Porphyrio Henriques da Fonseca) "Largo do Costa Pinto, Cacilhas" [décima quarta exposição da Sociedade Promotora das Bellas-Artes em Portugal, 1887].

Café Progresso.
almaDalmada

Ainda bem que os burros cacilheiros não estão no Largo, porque se pilham o Costa Pinto todo vestido de verde, como Porphyrio o pintou, chamam-lhe um figo, mesmo á porta do café "Progresso", n.° 79.

Café Progresso (fotomontagem).


(1) Pontos nos ii, 26 de maio de 1887

sábado, 13 de junho de 2020

Colóquio/Letras: Romeu Correia, A palmatória

A Palmatória é a biografia teatralizada de Nicolau Tolentino, poeta que viveu em Lisboa entre 1740 e 1810, deixando sinais de uma vida complicada e de uma obra praticamente esquecida nos nossos dias, a não ser em estudos académicos.

Retrato de Nicolau Tolentino, Giuseppe Trono.
Agostinho Araújo, Tipologia votiva e lição literária: o caso Tolentino

O dramaturgo Romeu Correia, já falecido, escreveu uma farsa, como o próprio Autor lhe chama, em tomo da figura do escritor e com algumas reminiscências da sua poesia. Para isso, criou duas personagens através das quais traçou o retrato de Tolentino e da sua «inquieta consciência», nas palavras do criador nosso contemporâneo.

Este procura pôr em confronto o poeta e o que resta da familia, no contexto histórico e social da época, sendo o marquês de Pombal uma sombra poderosa até à morte. Viciado no jogo, Nicolau Tolentino acaba por ser vitima irremediável do seu vício.

No entanto, em A Palmatória a figura dupla do poeta sai diminuída naquilo a que podemos chamar o valor dramático em relação à conflitualidade que surge, por um lado, entre as suas duas irmãs e, por outro, entre estas e outras personagens (as criadas, o pretendente à mão de uma das irmãs que não se decide a casar).


O que parece haver de mais interessante na peça de Romeu Correia tem a ver com o tratamento cómico que confere às personagens das duas irmãs de Tolentino, satirizadas com grande convicção, graças à inveja que as marca (ambas a sofrer pelo mesmo pretendente e pela mãe deste, que parece eterna).

A estas cenas junta-se o conflito provocado pela guerra de que é vítima o soldado que namora a criada Eutásquia, acabando por morrer de fome porque «na guerra tam-bém se morre de fome». Aliás, o cadáver do soldado é devorado pelos cães, numa Lisboa pejada de cães raivosos e de ratazanas.



Na esquerda mão um livro me pintaste,
Na outra a palmatória,
Com carregado, ríspido focinho,
Dictando leis em tribunal de pinho.



A peça de Romeu Correia possui, na linha da obra dramática do Autor, potencialidades que, devidamente exploradas, podem constituir material cénico capaz de proporcionar um espectáculo teatral digno da carreira do dramaturgo.

C. P.  [Carlos Porto ]


(1) Colóquio/Letras, Nicolau Tolentino em farsa

Artigos relacionados:
Colóquio/Letras: Romeu Correia, O Tritão
Colóquio/Letras: Romeu Correia, Cais do Ginjal

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Nicolau Tolentino em farsa

Tema:
Romeu Correia


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Colóquio/Letras: Romeu Correia, Cais do Ginjal

Neste romance de formação e aprendizagem, Romeu Correia propõe-nos, entre o real e o onírico, o percurso de um adolescente que caminha para a vida adulta através das pequenas tragédias do quotidiano e das grandes alegrias ligadas à capacidade de viver em estado de exaltação exclamativa. Reconhecemos, desde o título, o espaço predilecto do Autor — o cais do Ginjal e a jubilação do Tejo, num tempo de golfinhos, sereias, mas também de luta política a desafiar a repressão do regime. Logo nos primeiros parágrafos, o narrador situa precisamente o desenrolar da acção. «Lembro-me de que esta história começou em Junho dc 1934, deveriam ser onze horas da noite.» 

Cacilhas, Ginjal, Abel Manta (1886-1982), c. 1950.
Museu Municipal de Abel Manta

A notação temporal, o cunho biografista e rememorativo apontam, de imediato, para uma narrativa cronologicamente indiciada por etapas que funcionam como obstáculos a transpor pelo jovem de dezassete anos que em poucos meses vai descobrir, através de múltiplas peripécias, as contradições do seu sentir mais secreto, bem como o lento desabrochar de uma consciência social. No romance anterior, intitulado O Tritão e publicado em 1983 (ver nossa recensão in Colóquio/Letras n.° 81), Romeu Correia evocava já a realidade que encontramos na presente obra, mas a partir de uma óptica da infância. 

O cais do Ginjal, lugar de origem, encantatório e rude, continua a ser o espaço dc construção da identidade, mas agora marcado por conflitos em que o individual se confunde com o colectivo. O eixo efabulativo constituído pelo romance familiar encontra aqui o seu pleno desenvolvimento, e embora deparemos com uma constante oposição entre lugares fechados (a casa, dominada pela avó e pelas tias solteiras, onde quase nunca se passa nada) e lugares abertos (o cais e o rio, onde se acumulam os eventos), a verdade é que, por vezes, estes espaços, tal como o sonho e a realidade, se confundem, para traduzir um entrelaçar de vidas a que o adolescente assiste com perplexidade toldada às vezes de breve inquietação. 

O deslumbrante encontro com a Sereia, que o confunde com o defunto tio Raul, marca o ponto de partida da narração e aponta para a descoberta do desejo que vai atravessar todo o percurso do personagem. 

Romeu Correia retratado por Fernando Lemos em 1949.
Casario do Ginjal

A tonalidade erótica deste acontecimento fundador («Ao mencionar os atractivos do meu corpo, acariciava com as mãos ásperas toda a minha pele. Tremia, tal a emoção que me inundava os sentidos», p. 14) acompanhará os sucessivos encontros com a ousada Ermelinda, operária de La Paloma, que lhe grita, despudoradamente: «Eu quero ficar prenha de ti, meu amor!» (p. 98) e a perturbante descoberta da sensualidade da criada do Costa, a Albertina «que punha os homens aos pulos» (p. 102) e o deixa «a ferver de desejo» (p. 103). 

O alvoroço sexual conduz a uma forma de fusão com a mulher e com o Tejo, o qual funciona como cenário envolvente onde se inscrevem as lamentações da Sereia e os gritos de prazer do personagem («Em re-dor de nós havia o rio Tejo que, de súbito, começou a ficar iluminado de luar. Uma luz de prata envolvia-nos cada vez com maior intensidade. E logo um canto de dor e angústia chega aos meus sentidos, confundindo as palavrinhas meigas da Ermelinda. Todo o meu corpo arde de prazer, perco a noção exacta de onde me encontro, eu e a minha amante somos uma só pessoa, temos o mesmo sangue que nos percorre o espaço das nossas vidas. Sinto ganas de gritar, de gritar... até morrer por instantes», p. 136). 

No entanto, esta experiência dc quase morte revela-se pujante de vida, pois é através de Ermelinda, inspiradora erótica, que se fará a passagem para o mundo adulto, quer através da implicação política, quer através do nascimento do filho que anuncia o futuro. A operária procede tacticamente a uma denúncia das condições sociais dos trabalhadores, alertando a incipiente consciência do adolescente para a realidade da exploração de que foi vítima o avô José Correia c, sobretudo, para as injustiças que o cercam: «Os operários trabalham toda a vida e quando morrem nem dinheiro existe, muitas vezes, para o enterro. E contra este estado de coisas, con-tra esta miserável exploração, que os meus lutam e sofrem» (p. 75). 

Embora, no início, o medo o avassale, como à maioria dos habitantes de Cacilhas, que receiam «a pevide», muito rapidamente o seu ponto de vista se modifica e acaba por consentir a missão de correio clandestino.

A Sereia, elemento fantástico ligado aos sonhos da infanda, funciona, por vezes, como a consciência que o alerta para os perigos que o espreitam. Ela acaba por suicidar-se, no fim do romance, em frente da sua janela, revelando um tempo de ilusões que se dissipa. («Ela estava ali para me alertar da minha transformação, do meu crescimento», p. 188). 

Romeu Correia retratado por Fernando Lemos em 1949.
Museu Calouste Gulbenkian

Assim, a obra começa e acaba com uma referência à Sereia. Entre estes dois tempos inscreve-se todo o percurso de uma aprendizagem cuja arquitectura desenha evolução individual e o desenrolar de pequenas peripécias que enchem de colorido a modorra do cais: a aventura desastrosa da saudação ao navio inglês, organizada por um almirante de pacotilha, as proezas do Armando Arrobas que mede forças com os rufias de Lisboa, a misteriosa sedução do Toninho da Arealva, o confronto desolador com o abandono dos pais, a evidência de que também o espaço mudava de pele («Por este tempo, Cacilhas parecia uma cobra a mudar a pele», p. 59). 

A arte de contar de Romeu Correia faz assim desfilar, diante dos nossos olhos, com vivacidade e poesia, um tempo dilatado de metamorfoses e rumores que al-ternam com o silêncio do Tejo, sempre definido pelo fascínio. 

Entre palpitações de medo e formas diversas de coragem, assistimos em Cais do Ginjal ao desenrolar de um percurso iniciático onde se inscreve a grande aventura de uma vida, mas onde lemos também as formas de pequenos destinos que se entrecruzam para dar um sentido à epígrafe inicial, embaladora e nostálgica: «Os seios da mãe são lembrados no peito da primeira mulher amada...» 

Maria Graciete Besse


(1) Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal, Editorial Notícias, 1989

Artigos relacionados:
Colóquio/Letras: Romeu Correia, O Tritão
Colóquio/Letras: Romeu Correia, A palmatória

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Nicolau Tolentino em farsa

Tema:
Romeu Correia

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Colóquio/Letras: Romeu Correia, O Tritão

A longa citação com que abre o romance instala-nos já num clima de dimensões fantásticas: Damião de Góis afirma a existência de homens marinhos no Tejo e dá conta de um «Tributo das sereias», promulgado por D. Afonso III. A partir daqui, o real e o imaginário entretecem um espaço de projecções, com o desenrolar da memória do narrador em que o OLHAR assume importância fundamental, reflectindo a ambientação humana do cais do Ginjal, tão perto e tão longe de Lisboa, num tempo au que o rio era «habitado por peixes e mistérios sem fim». 

Familia de Romeu Correia no corredor do Ginjal, c. 1900.
O Tritão, Editorial Notícias, 1982

Espaço da origem, o cais é ponto de chegada e de partida para considerações de carácter histórico e social. Romeu Correia parte da infância como lugar dum lirismo encantatório, e percorre, com grande espontaneidade e limpidez, os domínios problemáticos de uma identidade a construir-se.

A história familiar é o eixo efabulativo que coordena o discurso numa dupla vectorização. como relação de parentesco (a rispidez do pai/a ternura do avô), como memória de um espaço exterior atravessado por encantos e ameaças.

Assim, o lugar fechado da casa familiar, domínio da autoridade, alterna com o espaço fantástico do cais, aberto para a descoberta de um mundo outro, onde as ruas da gandaia, calcorreadas na proximidade secreta das coisas, conduzem ao espaço da aventura na quinta e ao lugar mítico da gruta, espaço de iniciação onde o velho Tomás, «sabichão dos sete mares e contador de histórias maravilhosas», revela às crianças pobres do Ginjal as fronteiras de uma cosmogonia fascinante.

Vistas Stereoscopicas de Lisboa, Panorama das Margens do Tejo.
Delcampe

Situado no centro do romance, o episódio eufórico da revelação do tritão ao menino deslumbrado, frente à enorme pedra do Tramocciro, surge como clímax de um percurso pontuado em seguida pela acumulação de situações disfóricas: a entrada na escola e a descoberta das estratégias de sobrevivência num espaço de opressão; o roubo das garrafas (passa-porte para o fantástico) como motivo de humilhação pública; a redução às dimensões do limitado de um avô explorado por patrões que lhe oferecem, simbolicamente, pelo Natal, restos de trajes de cerimónia; a desmistificação progressiva do espaço de liberdade e fantasia, em que o herói revelador de magias se transforma em títere medíocre e a casa da quinta é devorada pelo fogo, restando dela apenas uma valsa tocada pelas chamas, num momento fulgurante que enche de pânico o olhar, «o sangue dos presentes».

O núcleo dramático do romance, constituído a partir de tensões afectivas, morais e sociais, surge como uma encruzilhada de vidas, um entrelaçar de tempos sobre o tempo da personagem central e articula-se com o que poderíamos chamar uma estética da veracidade, um impulso para o verídico vivencial, corroborado pela presença da fotografia de família no fim da obra e a ilustração efectiva do espaço em que decorre a acção.

Organizando-se através de uma série de experiências e de uma relação triangular (menino-avô-Tomás), o romance cria uma dinamica narrativa que oscila entre a ho-rizontalidade do drama colectivo (a vida pobre, sempre igual, da gente do cais) e a verticalidade (ascensão e queda) de um imaginário decidido a não se deixar vencer pela brutalidade da vida.

Apesar de o Ginjal ser hoje um «lugar-fantasma», definido por atributos negativos, a «romagem sentimental» que o narrador aí efectua, nas últimas páginas da obra, levando o neto pela mão, é simultaneamente amargo balanço de uma vida (Hoje tenho sessenta e tal anos e sou o que os outros me obrigaram a ser... Um homem ajuizado, útil, domesticado») e afirmação de uma exigência de tempo habitado por essa prodigiosa capacidade de acreditar em sereias e tritões, de lavar os olhos nas fontes mais puras da criação humana.

A pedra do Tramoceiro.
O Tritão, Editorial Notícias, 1982

A «identidade de raciocínio» que o liga à criança que foi e ao rapazinho que o acompanha numa «noite ventosa de Outono» traduz bem a dimensão do futuro, que é decerto o lugar onde se inscreve a esperança. 

Maria Graciete Besse (1)


(1) Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983

Artigos relacionados:
Colóquio/Letras: Romeu Correia, Cais do Ginjal
Colóquio/Letras: Romeu Correia, A palmatória

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Nicolau Tolentino em farsa

Tema:
Romeu Correia

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O fim do neo-realismo: António Lobo Antunes e o elogio do subúrbio

A ter de extrair, da vasta obra romanesca do escritor, um excerto passível de configurar um manifesto do “ser português”, quer pelos componentes tradicionais que retoma, quer pelas sugestivas modulações que lhe imprime, a opção terá de recair sobre este desabafo de Alice, personagem de "O Manual dos Inquisidores", em cujo nome ressoa, em modo paródico, um país que não será o das "maravilhas":

António Lobo Antunes e José Cardoso Pires na década de 1980.
Luar de Janeiro

se houvesse menos mar sempre tínhamos um bocadito de espaço para umas nabiças e umas couves, se houvesse menos mar plantávamos batatas e jantávamos, existindo nesta terra um Governo inteligente vendia logo a porcaria do mar e do calor aos suíços que são ricos ou aos ciganos que são espertos e arranjavam maneira de se livrar das ondas a retalho, vendia o mar aos suíços que se pelam por iodo e comprava uma postazinha de bacalhau do alto para a gente, a minha prima Alda que preferia a Cova da Piedade ao Paraíso 


Cova da Piedade, avenida da Fundação, 1973.
Maria Alfreda Cruz, A Margem sul do estuário do Tejo

— Ai quem me dera em Almada quem me dera no Feijó Alice [O Manual dos Inquisidores, 212].

* * *

De "Tratado das Paixões da Alma", onde esse espaço periférico surge amplamente descrito, vamos colher uma passagem significante, dada por meio de um esquema de lateralizações sucessivas. 

Numa disposição gráfica que sugere uma carta (nunca escrita), o espião Alberto, personagem que encaixa no tipo cómico do "marido traído/corno manso", vai evocando episódios de vida em comum, numa espécie de devaneio poético, e ensaiando as palavras que nunca dirá à ex-mulher, Manuela, cuja traição surpreendeu, em flagrante. 

Tudo isso representa, na economia narrativa, matéria excrescente, mas alimenta generosamente a atmosfera cómica do romance: 

Almada, Manuela, esconde-se inteira atrás dos recessos dos pilares de cimento da estátua do Cristo Rei, e é uma espécie de enorme Santa Iria da Azóia invadida pelos assopros do Tejo, com gaivotas à deriva que os anúncios dos restaurantes e as cores dos semáforos alucinam, a impedir-lhes o rastro de alface, sopa de grão e óleo dos cargueiros, compelindo-as a inundar as cervejarias em crocitos desesperados de fome, tentando pousar na espuma das canecas como no visco da margem, à cata dos pequenos caranguejos que trotam entre os seixos. 

Vista parcial de Almada, década de 1970.
Delcampe

Os edifícios e as árvores esbarram em bombas de gasolina, sucursais de banco e moradias de gárgulas no telhado, nas quais um braço de rio vem espichar nos lavatórios quebrados a sua fetidez de peixe. 

Edifício Meia-Proa, na Costa da Caparica, onde num dos apartamentos José Cardoso Pires escrevia.
Delcampe

Em Almada até o centro é subúrbio [Tratado das Paixões da Alma, 94].


(1) Susana Carvalho,  A ficção de António Lobo Antunes: os mecanismos do cómico, 2018

Artigos relacionados:
Neo-realismos
Costa da Caparica de José Cardoso Pires
A janela de José Cardoso Pires
O anjo ancorado

Leitura recomendada:
António Lobo AntunesO Manual dos Inquisidores, 1996
António Lobo AntunesTratado das Paixões da Alma, 1990

Leitura relacionada:
O "Zé" por António Lobo Antunes
José Cardoso Pires: um escritor não chora

terça-feira, 26 de maio de 2020

Emilia Pomar de Sousa Machado (1857-1944)

Oh! Noite, oh! Minha amiga! Sê bendita
No teu manto de brilhos estelares,
Bendita cá na terra e lá nos mares,
E na vasta amplidão, sempre infinita!

Emilia Pomar de Sousa Machado (1857-1944)
Romeu Correia, Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada...

Tua sombra é propícia a quem medita
E sente o coração livre nos ares,
Tendo sóis e planetas por altares
Onde existe a Verdade Eterna escrita.

Oiço a voz do silêncio que revela
A vida de outros mundos, e os mistérios
Ocultos na azulada transparência...

Há tesouros de amor em cada estrela
Que vai rolando em vagalhões sidéreos,
E tenho, e sinto, um Deus na consciência! (1)

Poetisa e educadora, nascida no lugar de Cacilhas pelo mês de Junho de 1857. 

Filha de Júlio Pomar, de origem galega, estabelecido com um armazém de azeite. Mais tarde casou com o comandante da marinha mercante José Severo de Sousa Machado [o filho deste casal foi o comandante Francisco pomar de Sousa Machado, sócio da Empresa Fluvial de cacilhas que teve na travessia do Tejo os "barcos pequenos" Popular, Pacífico e Portugal].

"Quando moça enfeitiçara-a a ópera no Teatro de S. Carlos, e lá ia, acompanhada do pai, atravessando o Tejo, de ida e volta em botes, nem sempre romançosa a corrente fluvial e nem sempre límpido céu estrelado. 

Quando em idade avançada, já no ocaso radiante, sentada ao piano, tocava e cantava algumas óperas do seu maior agrado, que a sua vizinhança escutava emocionada" [texto de D. Francisco de Melo e Noronha]. 

Emília Pomar de Sousa Machado conhecia Italiano, Francês, Inglês, Espanhol e Latim. Publicou o livro de poemas "As Pecadoras", deixando larga colaboração na Imprensa regional e foi correspondente da Revista Espírita Brasileira, "Luz e Caridade". 


Ablução [em "As Peccadoras" cf. Boletim O Pharol n.° 30, setembro de 2016]

Toda à agua do Ceo caindo em baga,
Cotas de chuva brancas, erystallinas,
verdes aguas do mar, potentes vagas,
e toda a que beberam as campinas,
mesmo a que guarda o intimo das fragas,
e de Jesus as lagrimas divinas,
o próprio orvalho que a lua da alva chora
para lavar a pobre pecadora.

Cacilhas, 24-5-1921.

Traduziu do francês o romance de Ernesto Doudet, "O Crime de João Malory", publicado em folhetins no jornal O Sul do Tejo, em 1885. Há um poema da sua autoria, "Ignota Almada", enaltecendo a resistência dos almadenses contra os castelhanos, em 1384, musicado por Leonel Duarte Ferreira.

Possuindo uma seleccionada biblioteca, exerceu constante e profícua acção cultural junto das camadas mais jovens. Muitos lhe ficaram devendo o gosto pela leitura, o amor aos livros e os primeiros passos na aquisição de conhecimentos.

Tia-avó do pintor Júlio Pomar, faleceu em Cacilhas no dia 14 de Novembro de 1944. Tinha 87 anos de idade. (2)

Que vejo além? ruinas e destroços,
o incêndio, a miséria, e tanta dôr...
entre montões de entulho, sangue e ossos:
É Liege e Luvaina: que pavor!


A Rendição (estudo), Adriano Sousa Lopes.
Reactor

O que ouço alem? que voz me traz o vento
que vem do norte, e fere o coração?
É como o estertorar do último alento
e a voz atroadora do canhão.

Que emanações são estas que ora sinto
que a brisa em seu eterno giro espalha?
é um mixto de horror, cheiro indistinto...
É o cheiro dos campos de batalha.

Quem impele nações contra nações,
que assola tudo e todo o mundo aterra?
É um monstro gerado de ambições
e esse monstro cruel chama-se: a Guerra. (3)


(1) De noite, Alguns vultos do Movimento Espírita Português
(2) Romeu Correia, Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada..., 1978
(3) A guerra, O Domingo n.° 719, semanário republicano radical, 18 de abril de 1915

Mais informação:
Alexandre Flores (fb)
Boletim O Pharol n.° 30, setembro de 2016

Leitura adicional:
Os grandes homens, Revista Luz e Caridade, outubro de 1934