sexta-feira, 27 de maio de 2022

Bote Leão (o Rei dos Nordestes)

Sobre a origem desta embarcação pouco se sabe, mas Manuel Leitão, no seu livro "Barcos do Tejo", refere uma declaração, de 1965, do mestre António da Costa Cruz, proprietário de um estaleiro de construções e reparações navais, em Alcochete, referindo que (...) o "Leão. teria sido construído na Junqueira, em Lisboa, havia mais de 140 anos (...). No entanto a inscrição do ano 1781 na antepara da ré sugere que a construção é anterior e o mais provável é que tal tenha acontecido. (1)

Bote Leão de Alcochete.
aNOTÍCIA.pt

Pertencia ao Marquês de Soydos (D. António Pereira Coutinho). De acordo com o Mestre António da Costa Cruz, carpinteiro de machado em Alcochete, terá sido construído na Junqueira. Mantinha rivalidade intensa com o "Diana" (pertencente á viúva do Comendador Estêvão de Oliveira), conseguindo, por vezes, vencer a falua em bolina cercada (cf. o jornal A voz de Alcochete em 1950).

Ainda, de acordo com o Mestre António da Cruz, tinha inicialmente a popa em "rabo de peixe", como a das faluas. Foi este mestre que reconstruiu a popa, alargando a parte que fica fora de água, para evitar que se afundasse tanto, quando carregado.

A popa em rabo de peixe, Barcos de sal (Alcochete), Silva Porto, 1882.
Colecção particular em Braga

A cana do leme foi feita com o calcés do primitivo mastro de "riga" (pinho de Riga) que partiu quando se soltou o estai real num dia de nortada no rio.

Na Igreja de Nossa Senhora da Atalaia, a 7 kms de Alcochete, existe um "ex-voto" que se refere a um milagre que aconteceu no "Leão" numa ocasião de aflição.

Comprado pela Empresa Portuguesa de Navegação Fluvial (detentora do vapor "Alcochete", que fazia a carreira de Alcochete) para eliminar a concorrência ao vapor. Serviu para transportar mercadorias e pessoal de descarga do carvão de navios no cais de Lisboa.

Vapor Alcochete.
Desembarque no cais do Alfeite dos sócios da Associação Naval em 1911.
Hemeroteca Digital

Foi novamente vendido e acabou por ficar nas mãos de Manuel Brigue e, depois, de João Baptista Damiães. Após a morte de João Baptista Damiães, o bote conservou-se na praia de Alcochete, porque a viúva e os filhos lhe tinham muito amor e não tinham coragem de se desfazer dele.

Após receberem garantias de que o "Leão" não seria abatido, a família consentiu na transferência da propriedade do bote para a Sociedade que o mandou restaurar para ser oferecido ao Grupo de Amigos do Museu de Marinha.; Sociedade é formada por João Augusto Vieira, José Vieira Júnior, Manuel António de Castro e Luís Lopes Silveira.

Restaurado pelo Mestre António da Cruz antes do seu ingresso no Museu de Marinha. (2)

O bote Leão serviu a população de Alcochete até à década de 60 do século passado, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da vila, pois com as outras embarcações de Alcochete impulsionou uma intensa atividade fluvial, não só no abastecimento de mercadorias à capital, mas também no transporte de pessoas e no carrego e descarrego de navios fundeados no rio Tejo (...)

São três as emblemáticas embarcações que nesta altura faziam a ligação entre Alcochete e Lisboa: a falua Diana e o bote Leão, que em 1907 passaram a pertencer à empresa portuguesa de navegação fluvial, assim como o vapor de Alcochete, que assegurou a carreira entre as duas margens de 1904 a 1958.

O vapor Alcochete que conduziu os convidados ao Alfeite, 1911.
Hemeroteca Digital

Só em outubro de 1917 é que o bote é registado em nome da empresa, por ter iniciado nesse ano a sua função no transporte de carga e passageiros. O bote Leão navegava à vela e a remos e tinha lotação para 26 passageiros.

Em 1925 a embarcação foi transferida para a delegação marítima do Barreiro, e o seu registo ficou afeto ao cais de Alcochete, mantendo-se propriedade da empresa até 1939, ano em que foi vendida pela quantia de quantia de vinte mil escudos a Manuel Brigue, morador em Alcochete.

Em 1941 o barco foi adquirido por João Baptista Damiães, residente em Alcochete pela quantia de vinte e oito mil escudos. Após a sua morte a embarcação ficou durante mais de uma década parada na praia de Alcochete e só em 1967 foi comprada João Augusto Vieira, um dos elementos do Grupo de Amigos do Museu de Marinha, pela quantia de oito mil escudos, que depois a ofereceu ao referido museu.

Transporte do bote Leão de Alcochete para a Doca do Bom Sucesso a 27 de junho de 1967.
Museu [digital] de Marinha

A última reparação do bote Leão foi da responsabilidade do mestre António da Costa Cruz e foi primorosamente pintado por Augusto Rodrigues.

A sua última viagem realizou-se a 27 de junho de 1967 de Alcochete para a Doca do Bom Sucesso, em Lisboa, onde ficou a aguardar a entrada no museu, de cujo património passou a fazer parte.

Mas a entrada tardou e o Leão apodreceu nas águas do rio em que sempre navegou. Contudo durante esse período o Museu de Marinha desenhou planos do bote que permitiram à câmara municipal recuperar a embarcação.

Cana do leme do bote Leão.
Museu de Marinha

Do bote Leão de 1781 apenas resta a cana do leme que está em exposição no Museu de Marinha. (3)


(1) In Alcochete n° 21, junho 2016
(2) Museu [digital] de Marinha
(3) In Alcochete, n° 21, idem

sábado, 7 de maio de 2022

Caldeirada à Fragateiro

O vapor da carreira dá signal, e a primeira escuma escachoa-lhe das rodas, no instante em que rente do caes uma fragata passa, com uma especie de deus marinho á ré, puxando a vela, emquanto o resto da companha desvia com arpões o costado da pesada traquitana, e o cão de bordo agita a cauda aos flavores da caldeirada que no convez refoga alegremente, sobre um lumareu jovial de pinho e d’urze. (1)

Vapor no Tejo (detalhe), Alfredo Keil 1890.
Casario do Ginjal

Os meus avós maternos foram, ele fragateiro e ela cozinheira do melhor restaurante de Caldeirada à Fragateiro, no Ginjal em Cacilhas, o Gonçalves.

Fragata do Tejo em frente ao cais do Ginjal.
Arquivo Municipal de Lisboa

Gostaria de comentar que nesta caldeirada não entrava a batata. Como elementos principais apenas o que era pescado no Tejo, a cebola e o tomate.

O peixe era basicamente o safio, a raia e a tremelga, a que chamavam "galinha do mar", a irós, o xarroco e, às vezes, corvina quando apareciam "enjoadas" à tona da água.

Lisboa vista do Cais do Ginjal, Cacilhas (detalhe), Horácio Novais.

O cozinhado era feito num alguidar de barro que mais tarde passou a ser em tacho, também de barro. Os ingredientes eram colocados em camadas, a cebola, o tomate e o pescado, por esta ordem e tantas quantas fossem, dependendo do número de comensais e não se mexia, apenas se girava (agitava) o recipiente. (2)


(1) Alfredo de Mesquita, Lisboa Illustrada, 1903
(2) Fernando Castro (comentários) em Receitas e Menus .net

Artigos relacionados:
Fragatas e varinos do Tejo
Restaurantes do Ginjal
Caldeirada à Pescador
etc.

Leitura relacionada:
Memórias de fragateiros... As embarcações tradicionais do Tejo Memórias de fragateiros Carlos Mateus de Carvalho Evolução das diferentes tipologias no período de 1785 a 1978...

Fragateiros no cinema:


segunda-feira, 11 de abril de 2022

Pedreirense Foot-Ball Club

Arrendara o Pedreirense Futebol Clube um declive de terreno no Pau-da-Bandeira e a maioria da massa associativa jurara "fossar" na terraplenagem. Há dias que parte da vila abrasava deste entusiasmo, e questiúnculas rompiam onde quer que estivessem adeptos dos amarelos-e-pretos e do União de Almada.

Construção do Campo do Pragal por voluntários do Pedreirense Futebol Club.
Gabriela Henriques

Vivia o Pedreirense sem campo atlético, treinando por empréstimo ora no rectângulo do Ginásio, ora no do rival. Mas agora, sim, com boa vontade de todos, tardes e noites, alumiados por réstias de sol ou bicos de carboreto, os braços não descansariam enquanto aquele chão não fosse propício a pugnas futebolísticas (...)

Pela ladeira ingreme que conduzia à vila, juntaram-se outros operários, gente das oficinas da Companhia de Pesca. Era um bando de enfarruscados; muitos faziam "picança" nas traineiras. Também eles vinham envolvidos no mesmo despique: unionistas e pedreirenses atenazando-se mutuamente. Uma joelhada fez voltar Alfredo - que deu com a cara suja de Casimiro.

Oh, pá! — Vas logo também cavar prà quinta do Feiteira? — brincou ele.

Já fui ontem... — respondeu o filho de Gracinda. Se os outros têm campo, a gente não tem porquê!? (1)

Pedreirense Futebol Clube. Nasceu na Rua da Pedreira, em 1920, e funde-se com o União Almadense, em 1944, dando o Almada Atlético Clube dos nossos dias. Esta fotografia da sua equipa de futebol é datada de 1925.

Equipa de futebol do Pedreirense Futebol Clube em 1925.
Henrique Mota, Desportistas Almadenses

Da esquerda: Agostinho de Figueiredo, Leonel Alaiz, guarda-redes da 1.a categoria do Clube de Futebol "Os Belenenses", e irmão de Rogério Alaiz, (talvez o futebolista mais habilidoso de Almada, e ainda irmão do grande democrata José Alaiz), Quirino Mendonça, Carlos Santos, Augusto Luís (o popular Agulhas, que além de bom futebolista foi um inteligente executante musical e inspirado compositor), Júlio Calóca, Manuel Lino, António Luís (conhecido por Maloia, que foi um primoroso futebolista), Américo Valentim, António Alves (conhecido por Pau por ser rijo e destemido, e irmão de dois excelentes futebolistas, Joãozinho e Franquelim Alves, o «Bidas»), Arsénio de Andrade (probo executante musical, que esteve 40 anos na Banda da Sociedade Incrivel Almadense) (2)

Cartão de sócio do Pedreirense Foot-Ball Club.
Delcampe, Bosspostcard

O sr. António Jesus Soares solicitou elementos sobre a criação do Almada Atlético Clube (fundado em 20 de julho de 1944), os quais lhe foram facultados, incluindo os modelos de equipamento utilizados, na altura, pela União Sport Club Almadense, filiado 166, admitido na Associação de Futebol de Lisboa em 23 de outubro de 1924 e pelo Pedreirense Football Club, admitido em 27 de maio de 1925, ficando registado com o nº 178.

Pedreirense Foot-Ball Club

Estes clubes fundiram-se para dar lugar ao Almada Atlético Club. (3)

União Sport Club Almadense


(1) Romeu Correia, Os tanoeiros, Parceria A. M. Pereira, 1976
(2) Henrique Mota, Desportistas Almadenses
(3) Alberto Helder, Fui voluntário durante 867 dias

Mais informação:
Joaquim Candeias, Efeméride do primeiro jogo
Stadium n° 89, 1944

Artigos relacionados:
Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Gregório, do Cacilhense...

sábado, 2 de abril de 2022

Jantar republicano (1956)

Nesse ano celebrou-se o 46º aniversário da implantação da República em Almada estando a comissão comemorativa constituída por Hélio Vieira Quartim, Firmino da Silva, Rafael Ferreira, José Alaís, José Duarte Vitorino Júnior, António Maria dos Santos Queimado, Raimundo José Moreira, José Maria, Amadeu de Almeida Ferrão, Óscar Penedo, Herculano Pires, Henrique Barbeitos, Francisco Açucena, Raul Adão e Silva, João Pedro de Jesus, José Moreira, Romeu Correia, João Romana, José Justino de Jesus, Salvador Avelar, José de Jesus dos Santos, António Maria Ribeiro, Felizardo Artur, Francisco Correia e Amaro Trindade Sanguinho.

Comemorações do 46º aniversário da Implantação da República. Jantar de confraternização republicana no Restaurante Pancão, Almada, 4 de Outubro de 1956.
Da esquerda para a direita: não identificado, dr. Henrique Barbeitos, Firmino da Silva, não identificado, José Correia Pires e Hélio Quartim.
Museu da Cidade de Almada (cedência de Virgínia Silva Neto cf. Paulo Emanuel Ramos Jorge, A oposição ao Estado Novo no Concelho de Almada...)

Do programa apresentado o governador civil apenas aprovou a sessão na Incrível Almadense no dia 4 e um jantar de confraternização de republicanos deixando de fora a romagem à casa onde nasceu Elias Garcia por razões óbvias de retirar visibilidade à celebração da efeméride adivinhando um cortejo cívico com alguma expansão que pudesse constituir uma manifestação aberta e espontânea de repúdio ou de questionamento das instituições.

Foi no sentido de exercer controlo e vigilância sob o evento que Fernando Gouveia e a brigada liderada por Manuel de Medeiros se deslocaram a Almada. A sessão na Incrível Almadense foi presidida por Câmara Reis, secretariado por Firmino da Silva e Henrique Barbeitos e teve como oradores Rodrigues Lapa, José Alaíz, Herculano Pires, Edmundo Vieira Ferreira, João Pedro Martins Calvário e José Correia Pires na presença de uma numerosa assistência onde foram notadas mulheres e menores.

Comemorações do 46º aniversário da Implantação da República na Incrível Almadense, 4 de Outubro de 1956.
À frente e da esquerda para a direita: Firmino da Silva, não identificado, dr. Henrique Barbeitos. Atrás de Firmino da Silva encontra-se José Alaíz.
Museu da Cidade de Almada (cedência de Virgínia Silva Neto cf. Paulo Emanuel Ramos Jorge, A oposição ao Estado Novo no Concelho de Almada...)

Foi aprovada uma moção enviada por Amadeu de Almeida Ferrão e Mário Fernandes que propunha que a comissão organizativa da sessão continuasse para organizar a nova campanha eleitoral, ao passo que no jantar de confraternização celebrou-se um minuto de silêncio pelos que morreram pela República em 1910 e implicitamente pelos perseguidos e mortos pelo regime.

Neste evento ainda vemos antigos republicanos, como Firmino da Silva, embora esteja já dominado pela oposição comunista.

Casa de pasto e retiro de José Pancão à direita na foto.
Museu da Cidade de Almada

Estes eventos constituíam momentos de contestação ao se celebrar a democracia, a coberto da República, ou seja, não era uma comemoração da Primeira República, mas da liberdade que existia durante a sua vigência e, portanto, quando se vitoriava a República era este o seu significado. (1)


(1) Paulo Emanuel Ramos Jorge, A oposição ao Estado Novo no Concelho de Almada (1933-1974), 2019

quarta-feira, 16 de março de 2022

Costa Almirante (o Nélson)

Agora ali, no rio, obedecendo às ordens do Almirante, logo nas primeiras remadas tive remorsos da minha leviandade. A pobre da Ermelinda à minha espera, cheia de problemas, e eu embarcado no escaler, remo entre mãos, a escutar as baboseiras do Costa, que ficava maluquinho quando se via no posto de comando.

Pequenas embarcações do Tejo junto a navio de guerra.
Arquivo Municipal de Lisboa

A sua farda de marinha, os gales dourados, o chapéu-armado, as duas medalhas de cobre a baloiçarem no peito. Mesmo sabendo que as condecorações as ganhara ele como sargento, na Primeira Guerra Mundial, tudo ali me parecia fora do tempo em que nos situávamos.

Os gritos de comando, os apitos histéricos, os ralhos quando não fazíamos o que ele queria, transformavam a tripulação do escaler num bote de doidos. Os quatro remadores eram tratados por "marujos" (...)

O Rainha Vitória singrava agora a direcção do navio-almirante, o couraçado Nélson, para lhe prestar as honras do estilo.

O Costa exigia disciplina na remada, cabeça e ombros direitos, pás dos remos bem metidos na água e puxadas ao peito. A maré estava a fazer carneirinhos, a voltar à vazante, vindo constantes borrifos refrescar a tripulação.

HMS Nelson
off Spithead for the 1937 Fleet Review
Wikipedia

— Marinheiros! Quando eu ordenar Ninguém rema! — avisou o Costa — a marinhagem prepara-se para a saudação a navio-almirante.

Já da outra vez que alinhei nestes trabalhos fora a mesma manobra diante da esquadra francesa. Que felicidade experimentava o meu vizinho nestas manhãs no Tejo! O rosto bolachudo, bigode e perinha, olhos pequenos e mortiços, enquadrados naquele fardamento carnavalesco, davam-Ihe um ar de ter fugido de um hospital de doidos (...)

Atenção! Ninguém rema! ordenou o nosso comandante. Suspendemos a remada e erguemos os remos. O escaler ainda navegou por momentos, sereno, deixando-se arrastar na maré. Diante de nós tínhamos a enorme montanha de aço, o casco do mastodôntico Nélson.

O Costa retirou o chapéu da cabeça, no que foi imitado por todos nós, e rompeu com os hurras! — três vezes as nossas boinas se ergueram numa gritada saudação. Olhando para a parte superior do casco do couraçado não descortinámos um inglês sequer.

Eramos como uma pulga a saudar um elefante. O Costa tossiu, teve um esgar de decepção, e disfarçou, colocando o pomposo chapéu na cabeça. A marinhagem imitou-o sem palavras, mas ainda esperançada a aparição de gente do Nélson, que nos acenasse um leve adeus.

De súbito, lá do alto, dois vultos debruçaram-se na amurada e vazaram, sem a mínima cerimónia, um latão pejado de imundícies. Cordas líquidas de porcaria desceram na direcção do nosso escaler, borrando-nos, sem piedade.

HMS Nelson
Members of the South African Royal Naval Volunteer Reserve
Wikipedia

Cabrões! Filhos da puta! berrou o nosso Almirante, perdendo a compostura. Num instante ficámos irreconhecíveis, imundos de óleo e de outras coisas, que a nossa afição não permitia que avaliássemos. O Rainha Vitória bailou por momentos com o entulho e o nosso pânico, caindo o Alberto ao rio agarrado a um remo.

As nossas caras e vestes estavam nura lástima, havia borras sobre tudo o que era branco e colorido, parecíamos uma visão de pesadelo. Recolhido o nosso companheiro que fora pela borda fora, tentámos passar por água as partes mais atingidas pelas borras. As mãos, a cara, os punhos dos remos, foram chapinhados com água salgada. Não havia palavras para classificar aquele percalço naval, que nos atingira naquela hora.

Depois dos palavrões, enraivecidos, soltados pelo Costa Almirante e a retirada do filho do Tejo, blasfemou o Fernando, com lágrimas na garganta:

— Se tivesse um torpedo aqui afundava este sacana! Mas o Vitor, cheio de bom senso, aconselhou que talvez fosse melhor afastarmo-nos da vizinhança do Nélson, pois corríamos o risco de sermos bombardeados com outro despejo.


Todos, incluindo o comandante, anuímos na retirada. Remos ajustados nos toletes, pás metidas no rio, cada um fazia o derradeiro esforço de regresso ao Cais do Ginjal.

Cais do Ginjal, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Arquivo Municipal de Lisboa

A cara do Costa trazia estampado todo o estigma de malogro. Atirava com o chapéu-armado para o fundo do escaler, sacudia ainda pedaços de sujidade das orelhas, do bigode, do pescoço, cuspia, enojado, gostos estranhos que he apareciam no paladar. Pequenos barcos a remos ou à vela, que se cruzavam connosco, admiravam-se do nosso aspecto desastroso. E ouvimos alguns gritos trocistas, à laia de conselho:

— Declara guerra à Inglaterra, ó patriota!

Respeitado pela idade e a compostura cívica quando o viam em terra, aquela malta ao vê-lo agora sujo e maltratado no rio, vingava-se, cobarde e traiçoeira. Eram como punhaladas no Costa tais dichotes da canalha da praia. E, sem aparente reacção, rosnava para os nossos ouvidos:

A escumalha está como quer! Cavalo-marinho no lombo é o que vocês precisam! (...)

Cais do Ginjal, 1935.
Romeu Correia, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982

Aproximámo-nos do cais, onde os dois turcos de ferro esperavam o escaler para tê-lo içado durante os dias necessários. Alguns curiosos aguardavam a abordagem do Rainha Vitória, que sempre proporcionava um esper táculo fora do comum. Não pudemos evitar desta vez mais risos e chacota entre os que estavam na muralha.

Na varanda, a D. Preciosa gritava, aflita: Que vos aconteceu, ó Costa?

Logo o Rui que, embrulhado num xaile, estava por detrás da mãe, comentou, divertido: Foram bombardeados, dona Preciosa! (1)


(1) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal

Tema:
Romeu Correia

segunda-feira, 14 de março de 2022

Costa Almirante (o Rainha Victória)

Costa Almirante, que, sendo caixa no Montepio geral, tinha a loucura da Marinha de Guerra, pois construira um escaler e fixara dois turcos de ferro na borda da muralha para arriar ou subir a embarcação. Aos domingos e dias santos, o "caixa" fardava-se de almirante e embarcava escoltado por quatro marujinhos, seus filhos.

Chegada a Lisboa de S. M. Maria Pia de Sabóia (detalhe), João Pedroso, PNA.
Google Arts & Culture

Ordens de comando, apitos de ordenança, remos ao alto em continência, tudo isto como num barco de guerra, o pai e os quatro rapazes exibiam nessa manhã um espectáculo no rio até a mulher por termo ás manobras, aparecendo, na varanda, a gritar:

— Ó Costa vem almoçar! A comida está na mesa!... (1)

Ao passar junto da casa do Sabino Costa parei para observar mais uma vez o escaler "Rainha Victória" suspenso nos dois turcos de ferro implantados å beira da muralha. Os quatro remos, o leme e o pequeno mastro, o Costa Almirante os havia recolhido, a recato de invejosos e ladrões.

Este vizinho era inconfundível no Cais do Ginjal, nenhum como ele animava as manhãs de domingo e alguns feriados, escaler descido nas águas do rio, ele fardado de almirante de opereta, marujinhos seus filhos aos remos, e toda a equipagem a navegar Tejo fora, cumprindo ordens do pequeno e ridículo comandante.

Chegada a Lisboa de S. M. Maria Pia de Sabóia (detalhe), João Pedroso, PNA.
Google Arts & Culture

Um filho-remador, obrigado pelo capricho paterno a cumprir a heróica tarefa matinal, mantinha-se casmurro não aprendendo a nadar. O menino Rui era a única ovelha ronhosa daquela família de marinheiros que, no caso de naufrágio, desceria às profundezas como um solitário prego.

Panorâmica dos armazéns da Sociedade Theotónio Pereira e conjunto habitacional privado (n.os 53 a 64).
Boletim O Pharol 40


O pai sofria, tentando na muralha e nas areias do Ginjal, com colete-de-cortiça, corda e outros apetrechos de protecção, que o rapaz se afoitasse sobre a massa líquida do rio. Mas tudo em vão. Era este falhanço, o maior, que maculava a carreira náutica do caixa do Montepio Geral. (2)


(1) Romeu Correia, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.
(2) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal

Tema:
Romeu Correia

quarta-feira, 2 de março de 2022

Bairro de Casas Económicas (ou de Nossa Senhora da Piedade)

Bairro Nossa Senhora da Piedade: este bairro, suscita interesse logo à partida. Este interesse não passa despercebido quando é fácil identificar perfeitamente a delimitação do bairro relativamente à envolvente. É também, motivo de interesse a organização do bairro segundo um traçado hierarquizado e pensado numa determinada forma de edificado, a moradia.

Cova da Piedade, ed. Comér (bairro das casas económicas e capela), década de 1970.
Delcampe

É pois, bastante interessante analisar esta zona para compreender através do estudo das densidades, de que forma esta ocupação tem influência no contexto da cidade e na maneira de sentir e viver o espaço.

O aspecto relacionado com os usos é muito caracterizador de uma determinada área, revelando as tendências e divisões de conjuntos urbanos perfeitamente distintos. Podemos verificar isso mesmo quando observamos o Bairro Nossa Senhora da Piedade, concebido com o propósito de ser um bairro de casas económicas.

Caracteriza-se pela predominância do uso da habitação e pela presença relevante da Escola EB1 No2 da Cova da Piedade e do Centro Paroquial da Cova da Piedade.

Cova Da Piedade, Escola primária do Bairro, 1959-1960.
José Niz

Pretende-se ainda nesta fase, identificar e perceber como é a relação entre o espaço público e o edificado, bem como reconhecer a relação público privado.

Assim, no Bairro Nossa Senhora da Piedade, existe um predomínio da tipologia de Moradia Geminada com a excepção dos equipamentos e da alameda de entrada do bairro, ladeada por edifícios de habitação colectiva.

Bairro das Casas Económicas, Júlio Diniz, década de 1950.
Arquivo Municipal de Almada

Contudo, acaba por constituir um bairro equilibrado quanto às suas tipologias traduzindo uma homogeneidade aparente, não só entre o edificado, mas também entre as vias públicas e o próprio edificado. (1)

A partir do século XX, a indústria ganhou relevo e tornou-se a actividade principal em Almada. Este facto implicou a ida de mão-de-obra qualificada para a zona e consequentemente uma melhoria significativa na habitação, tendo como ponto assente e de grande relevância fixar esta faixa de população em Almada.

Vista aérea da Escola Naval e do Arsenal do Alfeite (mostra o Bairro de Casas Económicas em construção no quadrante direito superior), Mário Novais.
Flickr

Contudo, devido às Guerras Mundiais, a urbanização atrasou-se e só com o termo da 2a Guerra Mundial o Governo Central, e concretamente pela iniciativa da Câmara Municipal, foram contratados os arquitectos Faria da Costa e Étiènne Groer para elaborar aquele que seria o Plano de Urbanização do Concelho de Almada (1946).

Neste Plano de Urbanização estavam abrangidas as freguesias de Cacilhas, Almada, Pragal, Cova da Piedade, Laranjeiro e Feijó.

Por imposição da topografia as margens ficaram pouco exploradas pelo Plano, à excepção do aterro construído para a instalação dos estaleiros da Lisnave, que representava para o Município um sector de grande importância ao nível regional e nacional.

Vista aérea da Cova da Piedade, ed. Comér (bairro das casas económicas à direita na foto), 1953.
Flickr

Assim, o desenvolvimento de Almada efectuou-se através de dois eixos principais que tinham Cacilhas como ponto de convergência: um desenvolvia-se pelas freguesias emergentes (Almada, Pragal e Cova da Piedade) e o outro percorrendo toda a linha de costa que já anteriormente fazia de eixo orientador e de ligação entre aglomerados nomeadamente a Avenida Aliança Povo MFA.

Relativamente à Freguesia da Cova da Piedade foi possível verificar durante a década de 40 o crescimento de ocupações baseadas em programas de casas económicas, nomeadamente o Bairro Nossa Senhora da Piedade.

Delcampe, Bosspostcard

A moradia geminada foi a lógica de ocupação privilegiada, bem como a implementação de equipamentos de cariz social, como o Centro Paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Piedade e a Escola EB1 No2 da Cova da Piedade. (2)

Cronologia

1933, 23 setembro - o decreto n.º 23052 estabelece as condições segundo as quais o governo participa na construção de casas económicas, das classes A e B, em colaboração com as câmaras municipais, corporações administrativas e organismos corporativos (art.º 1.º);
as Casas Económicas, como passam a ser designadas, são habitações independentes de que os moradores se tornam proprietários ao fim de determinado número de anos (propriedade resolúvel), mediante o pagamento de prestação mensal que engloba seguros de vida, de invalidez, de doença, de desemprego e de incêndio (art.º 2º);
as atribuições do governo em matéria de casas económicas são partilhadas pelo Ministério das Obras Públicas e Comunicações (MOPC) e o Subsecretariado das Corporações e Previdência Social (art.º 3.º);
ao MOPC compete a supervisão da construção de casas económicas (aprovação de projetos e orçamentos, escolha de terrenos e sua urbanização, promoção e fiscalização das obras, administração das verbas cabimentadas e fiscalização de obras de conservação e benfeitorias) (art.º 4.º);
é criada a Secção de Casas Económicas na Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) (art.º 4.º);


1943, 24 novembro - pelo decreto n.º 33278, o Governo promove, em colaboração com as câmaras municipais, a construção de 4000 novas casas económicas, localizadas em Lisboa, Porto, Coimbra e Almada (zona de influência da base naval do Alfeite), criando as classes C e D, destinadas às famílias numerosas da classe média;

1949 - é referido, na Exposição "Quinze Anos de Obras Públicas, 1932-1947", que se encontram em construção ou autorizadas 500 casas económicas em Almada; data do plano de urbanização do Bairro Económico de Almada, da autoria do arquiteto Carlos Rebelo de Andrade;

Bairro Nossa Senhora da Piedade, Usos (Anexo I).
Densidade e Forma Urbana...

1950, 21 maio - ofício da Secção de Casas Económicas do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência à DGEMN, informando que em breve lhe será entregue o bairro para distribuição das moradias; solicita ainda, e "após experiência de administração de muitos outros bairros económicos", que sejam elaborados projetos-tipo para as seguintes construções: muros de vedação, anexos destinados a arrumações, garagens, capoeiras e telheiros abrigos;

Chegada do General Craveiro Lopes ao Bairro Económico da Cova da Piedade (27 de Abril de 1952).
Pastéis de AlMadan

1952 - inauguração do bairro, composto por 500 casas.  (3)


(1) Densidade e Forma Urbana, Densificação como valor de projecto e estratégia de desenvolvimento urbano Baixa Altura Alta Densidade
(2) Idem
(3) SIPA

Mais informação:
Empréstimo de 20 mil contos para a construção de um bairro de 500 casas económicas na Cova da Piedade